9 fatos sobre o aborto que esconderam de você

Atualmente, há um movimento articulado que transforma leigos e ativistas em “especialistas” pela mídia. Todos estes atores juntos distorcem e literalmente inventam informações, algumas vezes por ignorância, outras com verdadeiro dolo. Uma área da ciência na qual este movimento ocorre com total força é na obstetrícia, principalmente nos temas do aborto e da via de parto. Feministas, ativistas pró-aborto, pesquisadores ligados a instituições pró-aborto, mídia com viés de esquerda, dentre outros, descaradamente, manipulam dados em busca da liberação do aborto no Brasil em qualquer situação. Mesmo os especialistas de renome consultados possuem viés fortemente favorável à causa, não havendo espaço para o contraditório. Reparem que os entrevistados neste tema são sempre os mesmos. Quando alguém que pensa “fora da caixa” dos ativistas tem oportunidade de falar, provoca um espanto tão grande que transforma uma entrevista que deveria ser técnica em um cenário de ativismo como ocorreu comigo nesta entrevista sobre via de parto na GloboNews:

O que causa bastante estranhamento nesta discussão é que são alijados dela especialistas de renome. Como um exemplo simbólico, há um projeto de Lei (PL 7633/2014) em tramitação na Câmara dos Deputados de autoria do Deputado Jean Wyllys sobre via de parto que declaradamente utilizou como assessores na confecção a ABENFO (Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras) e a Associação Artemis (ONG declaradamente feminista), não dando qualquer espaço aos que realmente serão vítimas caso o projeto seja aprovado (médicos obstetras). Como médico obstetra, doutor em ginecologia e mestre em saúde coletiva escrevo este artigo com o intuito de dar a visão de um especialista sobre o tema e esclarecer os dados relacionados ao aborto no Brasil.

 

1. Não há uma epidemia de internações por aborto no Brasil

O primeiro ponto que deve ser sempre lembrado é que o aborto espontâneo é muito comum. Podemos encontrar relatos na literatura de até metade das gravidezes evoluir para aborto. Isso pode se dar por diversos motivos, mas os principais são: alterações genéticas e cromossômicas, infecções maternas, traumas, dentre várias outras. E saber isso ajuda a desmascarar o primeiro mito dos ativistas a favor do aborto: não há muitas internações por aborto no Brasil. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS nos mostram que em 2016 houve cerca de 186 mil internações pós-aborto para realização de curetagem (procedimento para retirada de restos ovulares) e aspiração manual intrauterina (mesmo propósito, mas menos agressivo). Levando em conta que tivemos cerca de 3 milhões de partos neste mesmo ano, o número pode ser considerado pequeno (6,2%). Portanto, não há qualquer epidemia de internações por aborto. Na maioria das vezes, a mulher aborta antes do atraso menstrual e nem se dá conta.

Os ativistas mentem descaradamente ao afirmar que grande parte deste número é advindo de abortos provocados. Não há qualquer possibilidade de sequer estimar qual a porcentagem destes casos que pode ser creditada ao aborto ilegal. Exatamente por ser ilegal, a paciente comumente não relata que foi provocado. E mesmo quando há o relato, o médico jamais vai divulgar por conta do sigilo médico. O dado que o Datasus recebe, portanto, é do total de abortos (espontâneos, legais, ilegais, etc.). Cada morta por suspeita de aborto ilegal deve ser enviada obrigatoriamente para necropsia no IML por se tratar de morte violenta. Somente nestes casos pode ser feita a associação inequívoca da morte com o aborto ilegal. O médico hospitalar não pode fornecer a declaração de óbito em casos de mortes violentas, exceto nos raros casos em que não é possível enviar a paciente ao IML.

 

2. O número de mortes maternas por aborto é muito menor do que a mídia diz

A mídia é especialista em divulgar dados infundados sobre o aborto. Esta reportagem do jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, comete erros em série. Inicia com a chamada “4 mulheres morrem diariamente por complicações do aborto”. O corpo do texto – aquele que boa parte das pessoas não lê – entretanto, afirma algo bem diferente: “o Sistema de Notificação de Mortalidade (SIM) (…) indica 54 mortes comprovadas de mulheres em decorrência da interrupção da gravidez em 2014”. O Estadão não diz exatamente de onde tirou o número que sustenta a chamada (“números do Ministério da Saúde obtidos pelo Estado”), mas é fácil deduzir: simplesmente usaram a totalidade de mortes maternas em 2015 (um total de 1738 mortes) que englobam qualquer causa, sendo as principais identificadas: eclampsia (164), hipertensão (162) e hemorragia pós-parto (127). As mortes por “falha de tentativa de aborto”, “outros tipos de aborto” e “aborto não especificado” somaram 53 no ano de 2015, um número quase 33 vezes menor.

Na gravidez, a mortalidade ocorre principalmente no parto e próximo pelos motivos mencionados (hipertensão, hemorragia, eclâmpsia, dentre outros). O aborto é somente a quinta causa clínica de mortalidade materna. Culpar o aborto pela mortalidade materna é jogar uma cortina de fumaça nos reais problemas que transformam o sistema de saúde brasileiro em um assassino de gestantes: péssima assistência, maternidades em grande parte parecendo uma pocilga, pré-natal em que é praticamente impossível conseguir ser atendido por um obstetra, falta de leitos em grande parte dos municípios, falta de treinamento de profissionais que fazem a assistência ao parto, retirada do obstetra da assistência ao parto em prol de parteiras e enfermeiros para baratear o custo em demérito da saúde, imposição do parto vaginal mesmo em situações em que não há condições com o objetivo de baratear os custos em saúde, dentre outros.

Outra matéria, agora d’O Globo, divulga um falso número de mortes maternas ligando-as ao aborto: “65 mil mulheres morreram no Brasil por complicações ao dar à luz, durante ou após a gestação ou causadas por sua interrupção.”. É notório que a mortalidade materna do Brasil é vergonhosa, mas nem em Chade, o país com a pior mortalidade materna do mundo, o número chegaria a este valor. Como dito anteriormente, houve 1738 casos de mortalidade materna no Brasil em 2015, o que já é um vexame absoluto tendo em vista que a mortalidade materna do Japão é de cerca de 3 mortes por 100 mil nascidos vivos.

 

3. O aborto legal no Brasil não é tão seguro quanto pregam

A mesma reportagem do Estadão afirma que o aborto legal é um “procedimento seguro”. Um detalhe mostra exatamente o contrário: utilizando dados do DataSUS de 2015 para mortes decorrentes do aborto (Figura 1) nota-se que houve 3 mortes por aborto por causas médicas e legais, ou seja, aqueles realizados no hospital com teoricamente todo o cuidado. Dado que estas mortes decorreram dos 1700 casos de abortos realizados de forma legal, temos uma taxa de 176 mortes em 100 mil! É um número espantoso que deveria obrigar os gestores a fazerem uma inspeção em todos os centros de realização de aborto legal no que se refere a material humano, ambiência e outros fatores. Este dado desmente o obstetra entrevistado na matéria que relata “ocorrer 0,5 mortes a cada 100 mil abortos legais e seguros”. Para efeito de comparação, os cerca de 60 mil homicídios anuais no Brasil correspondem a uma taxa de 30 mortes em 100 mil.

Figura 1: Três mortes por abortos por causas médicas e legais em 2015. Fonte: DataSUS

Cabe salientar que o CID (Classificação Internacional de Doenças) de aborto por razões médicas e legais (O08) compreende aqueles feitos por estupro, anencefalia e causas médicas que são exatamente os previstos na lei brasileira. Não sendo leviano como muitos ativistas a favor do aborto, lanço a hipótese destes casos poderem ser de doenças graves maternas que obrigaram a interrupção da gravidez, mas é algo a verificar e somente o Ministério da Saúde pode fazê-lo. Por outro lado, é possível que grande parte dos bons obstetras se negue a fazer abortos decorrentes de supostos estupros por objeção de consciência, direito previsto em lei para casos que não se caracterizam como emergência.

Até mesmo a mais alta autoridade na área da saúde, o ministro Ricardo Barros, soltou pérolas sobre o tema. Em entrevista dada ao Estadão, o ministro afirmou: “Recebi a informação de que é feito 1,5 milhão de abortos por ano. Desse total, 250 mil mulheres ficam com alguma sequela e 11 mil vão a óbito.” Como já vimos, o número total de abortos é um completo chute. Pode ser mais, pode ser menos. Pode ser qualquer coisa. Mas os outros dois números são irresponsáveis e fogem a qualquer lógica. O suposto número de 11 mil óbitos é quase 10 vezes maior que a real mortalidade materna total do país (1738 mortes em 2015). E número de mortes por “falha de tentativa de aborto”, “outros tipos de aborto” e “aborto não especificado”, como já vimos, foi de 53 em 2015. A ocorrência de uma morte, embora possa ter sua causa subnotificada, tem probabilidade de erro muito menor porque a declaração de óbito é necessária para efetuar o enterro, e a informação é enviada imediatamente para as estatísticas oficiais. Já o suposto número de 250 mil mulheres com sequelas supera, inclusive, o total de internações anuais por todos os tipos de abortos: 186 mil. É sabido que o aborto tem uma taxa de sequelas muito baixa e, na maioria das vezes, de menor importância. Portanto, estes números sequer podem ser chamados de chutes. É, na melhor das hipóteses, uma completa ignorância sobre o tema. Ou pior: um reflexo do fato de muitas áreas técnicas da saúde da mulher são aparelhadas por militantes pró-aborto. É fundamental que estes postos sejam ocupados por pessoas técnicas com rigor científico.

 

4. Os estudos sobre o aborto divulgados pela mídia geralmente são enviesados

Os números dos estudos sobre o aborto geralmente adquirem vida própria e são utilizados da forma mais irresponsável possível pela mídia e por ativistas. De forma geral, é importante, ao ler um estudo, ver quem são seus autores, seus possíveis conflitos de interesse, estudos anteriores, como foram financiados, quais agências de fomento públicas ou privadas patrocinaram seus estudos, a ideologia que possuem, se são “queridinhos” pela mídia e muitas outras variáveis muitas vezes difíceis de serem avaliadas pelos leigos.

Outro fator importante a observar é se o pesquisador é da área. É comum, no Brasil, na área de obstetrícia, os pesquisadores serem epidemiologistas, antropólogos, sociólogos, doulas, dentre outros. Muitas destas pessoas sequer sabem o que é a barriga de uma grávida do ponto de vista clínico. E, não mais que de repente, passam a ser sumidades na área da obstetrícia de dentro de suas salas refrigeradas. Pessoas que jamais viram um parto passam a dizer, por exemplo, quando se deve fazer parto vaginal ou cesariana. Algo semelhante ao que ocorre na área de segurança em que indivíduos que nunca patrulharam uma rua passam a ser considerados pela mídia “especialistas” na área.

Deve-se atentar também para o fato de que entidades mundiais de grande renome também possuem conflitos de interesses, algo perigoso dado que elas possuem poder e norteiam políticas de saúde pública pelo mundo, tornando muito difícil alguém contrário ter voz para criticar seus dados. A Organização Mundial de Saúde (OMS) é uma grande alarmista nesta questão do aborto ajudando por vezes a espalhar dados não reais. Na questão do parto, por exemplo, desde 1985 a OMS exigia que os países seguissem uma taxa irreal de no máximo 15% de cesarianas. Somente em 2016, após muita pressão, ela acabou com esta meta que impossível de ser cumprida sem expor mulheres a risco. Nenhum país desenvolvido do mundo possui taxas de cesarianas menores que 15%. A única vantagem desta taxa era baratear a assistência médica e arrumar emprego para parteiras e enfermeiros ao retirar o obstetra. Não consigo me lembrar de nenhum caso recente de filho ou parente de político que tenha tido parto vaginal, mas eles são os primeiros a defendê-lo para os mais pobres.

 

5. O estudo mais utilizado no Brasil para estimar a quantidade de abortos se baseia em premissas sem qualquer comprovação científica, vulgo “chute”

Um estudo bastante utilizado como fonte por ONGs pró-aborto é o de Monteiro, Adesse e Drezett (2015) publicado pela revista “Reprodução & Climatério”. A primeira crítica que faço ao estudo é que ele parece denominar o aborto ilegal como aborto “induzido” sendo que o aborto legal também pode ser induzido. Em outro momento ele se refere a “induzido e clandestino” quando seria mais clara a denominação “aborto ilegal”. Mas a situação fica crítica quando notamos que todos os resultados são baseados em estimativas que usam premissas ditadas pelo Guttmacher Institute, uma instituição fundada pela principal rede de abortos dos Estados Unidos, a Planned Parenthood. O cálculo multiplica por 5 o número de internações hospitalares usando uma premissa não validada de que, no Brasil, a cada 5 mulheres que realizam um aborto ilegal, 1 vai procurar assistência médica; e estabelece outras premissas duvidosas sem qualquer comprovação científica: um chute onde 25% dos abortos são espontâneos e há 12,5% de subnotificação.

Baseado nestas regras, sem qualquer comprovação científica, o estudo concluiu que a quantidade de abortos ilegais pode ter variado de 687 a 865 mil em 2013 e que este número tem caído com o passar dos anos provavelmente por haver um melhor acesso a métodos contraceptivos. A mídia adota este estudo como uma verdade que não merece qualquer tipo de contestação. Se eu fosse realizar uma estimativa, baseado no número real de 186 mil internações por aborto anuais no Brasil, calcularia que cerca de 25% delas foram causadas por abortos ilegais e multiplicaria este número por 2 para incluir aquelas que não procuraram o hospital, o que daria 93 mil abortos ilegais por ano. Para chegar a este cálculo partiria do princípio que, atualmente, o método mais utilizado para o aborto ilegal é o misoprostol (Cytotec) e ele tem uma baixa taxa de complicações, mas muitas mulheres que o utilizam sangram, ficam com medo de ainda terem “alguma coisa” no útero e procuram o hospital para se certificarem do sucesso do método. Outras realmente têm algum tipo de ocorrência mais séria e precisam de atendimento médico.

Quem realmente atende pacientes nota que o número de abortos espontâneos é muito maior, mesmo porque não é muito difícil diferenciar o espontâneo do ilegal. As próprias pacientes costumam falar a verdade quando perguntadas por uma questão de sobrevivência. O médico precisa saber e elas confiam nos obstetras sabendo que a grande maioria jamais quebrará seu juramento de sigilo. Eu, mesmo sendo terminantemente contra o aborto, jamais deixaria de atender uma paciente com complicações para utilizar o que ela me falou contra ela.

 

6. Os dados sobre o aborto no Brasil não possuem a qualidade necessária para retirar conclusões inequívocas

Um ponto muito importante que deve ser minuciosamente explicado, já que grande parte destes estudos se valem de documentos oficiais, é como os dados oficiais sobre o aborto surgem.

No Brasil, o aborto é crime salvo nas situações previstas em Lei. Portanto, como já dito, em 2015 houve cerca de 1700 abortos legais. Todo o resto será classificado pelo CID-10 em categorias clínicas ou não classificadas compreendidas entre O0-0 e O0-8. Não há nenhuma classificação para aborto ilegal. O aborto médico e legal está na categoria O0-4 e só compreende os casos de estupro, anencefalia e risco de vida materno. Logo, o número de abortos ilegais em qualquer estudo não passa de um chute.

Há dados bons e dados péssimos. O médico é o único responsável por preencher a declaração de óbito e diagnosticar se o paciente está vivo ou morto, havendo poucos erros neste diagnóstico. A via de parto (cesariana ou vaginal) também costuma ser mencionada pelo médico de forma clara. Mas quando a questão é mais complexa e é difícil obter o real diagnóstico, a confiança é muito menor. No caso do aborto, é muito provável que o médico assistente coloque como diagnóstico no prontuário algo como “restos ovulares”, “aborto espontâneo”, “aborto incompleto”, “mola”, dentre outros. O médico não tem a preocupação de escrever no prontuário exatamente como no CID-10 nem é esta a sua obrigação, sua obrigação é salvar vidas! Entretanto, cada prontuário se torna fonte para totalizar os 186 mil casos de abortos por ano no Brasil.

Fora isto, cabe lembrar que os responsáveis por encaminhar os dados para o Ministério da Saúde não são os médicos que atendem o paciente diretamente, mas os burocratas dos hospitais. Letras de médicos são normalmente difíceis de serem decifradas e, muitas vezes, o diagnóstico que o médico deu não está na lista que o burocrata consulta para enviar a informação, o que faz com que ele chute. Inclusive, se não o fizer, o hospital pode nem receber o pagamento pela internação. Dificilmente o responsável pelo envio da informação ao Ministério da Saúde procurará os médicos que atenderam diretamente a paciente para se certificar do que houve e, mesmo que o faça, o médico dificilmente lembrará. Afinal, estamos falando de hospitais com milhares de atendimentos por mês.

Ou seja: qualquer estudo baseado nestes dados sofrerá um absurdo viés que o ferirá de morte: o viés de informação. E são estes dados que alimentam os Sistemas de Informação sobre Mortalidade (SIM) e Informações Hospitalares (SIH), as bases que os pesquisadores pró-aborto utilizam para fazer suas estimativas. A literatura sobre as inconsistências nos dados é farta. Um estudo de 2016 mostrou que há fraca correlação entre o descrito na declaração de óbito e o preenchido no sistema. Outro estudo do mesmo ano mostrou uma taxa de acerto menor do que 70% nas declarações de óbito feitas por médicos professores de uma Universidade Federal, sendo que a causa da morte apresentou erro de preenchimento acima de 50%. É lógico concluir que os erros no preenchimento de prontuários relacionados ao aborto sejam iguais ou ainda maiores.

 

7. Não é preciso fazer boletim de ocorrência para fazer um aborto legal e a maioria dos obstetras é contra a ampliação da lei do aborto

Em 2016, um estudo avaliou todos os 68 centros de aborto legal no Brasil. Chamou atenção o fato de que, dos 1283 prontuários de aborto legal analisados no estudo, 1212 tiveram estupro como justificativa, 55 anencefalia, 9 risco materno e 7 por outras malformações graves que não a anencefalia. É absolutamente impossível saber quantos destes estupros foram reais e quantos foram mero subterfúgio para obter o aborto. Como o próprio Ministério da Saúde orienta que não há necessidade de apresentar o Boletim de Ocorrência (BO) para obter um aborto legal por estupro, este número tende a ser cada vez mais desconhecido.

Os autores do mesmo estudo relatam a capacitação escassa das equipes e a dificuldade para obter um médico-obstetra para integrar as equipes, dado que grande parte dos médicos escolheu a profissão para salvar vidas. Sobre este tema, um ginecologista que realiza abortos legais recentemente relatou em entrevista ao jornal Folha de São Paulo que a objeção de consciência não é motivo relevante para não realizar abortos citando uma pesquisa que diz que “65% dos ginecologistas acham a legislação penal do aborto restritiva demais”. O que ele não disse é que a pesquisa foi realizada em 2003 e 2005, e está bem claro nela que os obstetras consideravam isso principalmente em situações de malformações fetais graves (77% em 2003, 90% em 2005), uma questão decidida pelo STF em 2012, enquanto somente 9,7% (em 2015) declarou ser a favor do aborto em qualquer circunstância. Eu, por exemplo, sou obstetra, não concordo com ampliação e me recusaria a fazer um aborto por objeção de consciência conforme a lei me autoriza. De acordo com a pesquisa citada, a maioria dos obstetras também pensa assim.

 

8. O famoso estudo de Débora Diniz e salada de números que ele criou

Em 2016, foi publicado um estudo amplamente divulgado pela mídia que tem como autores Débora Diniz, Marcelo Medeiros e Alberto Madeiro. Avaliando 2002 mulheres alfabetizadas de diferentes áreas urbanas brasileiras e autointitulado “Pesquisa Nacional do Aborto 2016”, o estudo concluiu que 20% das mulheres entre 35 e 39 anos de idade (definidas como “próximas aos 40 anos de idade”) fez um aborto ao longo da vida.

Primeiro: é muito complicado avaliar por meio de questionários qualquer ato que seja ilegal. Mesmo que as pesquisadoras tenham tomado cuidado para aumentar a sensação de sigilo e utilizado a “técnica da urna” (questionário em papel respondido pelas próprias entrevistadas e depositado em uma urna lacrada), o medo existe.

Entretanto, vamos assumir que o resultado esteja correto. O problema vem logo a seguir, quando o próprio estudo e a mídia extrapolaram os resultados para todo o Brasil, relatando um valor absurdo de “503 mil abortos por ano” ou “quase um aborto por minuto” como publicou a Carta Capital: “Estima-se que, aos 40 anos, uma em cada cinco tenha feito ao menos um aborto ao longo da vida, ou 4,7 milhões de brasileiras. Somente no ano passado, 503 mil optaram pela interrupção da gravidez. Foram ao menos 1,3 mil abortos por dia, 57 por hora, quase um por minuto. Essas brasileiras são, acima de tudo, mulheres comuns. Os dados foram revelados pela Pesquisa Nacional do Aborto 2016, um dos maiores levantamentos sobre o tema no Brasil, realizado pelo Anis – Instituto de Bioética em parceria com a Universidade de Brasília e financiado pelo Ministério da Saúde.”

A suposição que me causou mais espanto e, obviamente, a mídia não se tocou ou ignorou, é que o estudo mostrou que cerca de 50% das mulheres que fizeram o aborto precisaram ser internadas para concluí-lo. Esta taxa é exatamente o valor que supus baseado na minha experiência como obstetra, com a diferença que, se usarmos os dados oficiais do Ministério da Saúde para fazer a extrapolação, temos 93 mil abortos ilegais por ano e não 503 mil. Lembrando que o número real de abortos ilegais não é conhecido.

Cabe salientar, utilizando a técnica que menciono no item 4, que o realizador deste estudo (“Anis – Instituto de Bioética”) se autodeclara como uma “ONG feminista” que desenvolveu “a estratégia da ADPF 54, em cuja decisão, em 2012, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito à interrupção da gestação para mulheres grávidas de fetos anencéfalos”.

 

9. Nada indica que a legalização do aborto diminuirá a quantidade de abortos

Este é outro ponto que os ativistas adoram afirmar: “a legalização reduzirá o número de abortos”. O bom senso e a lógica, entretanto, mostram que o número aumentaria. Logo, os ativistas citam estatísticas do Uruguai, França, Portugal e outros países que mostrariam que ocorre uma diminuição. O problema é que tal argumentação utiliza as mesmas “estimativas” (chutes) do número de abortos ilegais que menciono ao longo do texto. Ou seja, dados não confiáveis. Não há veracidade neste argumento.

 

Conclusão

Espero que este texto tenha ajudado a trazer alguma luz sobre os abortos no Brasil. Trouxe minha experiência de pesquisador, obstetra que já trabalhou em algumas das maternidades mais movimentadas do estado do Rio de Janeiro e ex-dirigente da Comissão de Parto, Puerpério e Abortamento da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia.

O Brasil só mudará o panorama de mortes maternas se houver investimento (não necessariamente estatal) pesado em saúde sem mentiras como “iremos diminuir a mortalidade materna se legalizarmos o aborto”, “precisamos diminuir as cesarianas” (inventando termos como “violência obstétrica” para qualquer ato médico muitas vezes necessário como episiotomia e outras manobras obstétricas) e retirando o obstetra da assistência ao parto colocando no lugar enfermeiros e obstetrizes para gastar menos. Como este texto deixa claro, estas ações são articuladas e os ativistas pró-aborto possuem ótimas relações na mídia, judiciário, artistas, opinião pública, “intelectuais” e outros formadores de opinião. Convém combatê-las com a melhor arma de todas: a verdade.

60 COMMENTS

  1. A vida é um projeto não humano que humanos tem o privilégio de compartilhar se assim o desejar.Envolve responsabilidade e se não tem interesse, tome as devidas precauções.Se as precauções falharem responsabilizem-se.É a algo além da matéria, portanto o homem não detém o direito sobre ela para destruição, mas para colaboração em sua manutenção uma vez que participou da junção do material de origem do qual não detém todo o conhecimento.A ordem é não matarás! Não há mais nada sobre isso tipo: Só mate enquanto não há consciência.O homem tem direito a vida, mas não o direito sobre ela como ser criado.O homem não fez a sí mesmo, nem sequer se conhece.Interessante que muitas pessoas que comentaram são a favor do aborto.Eu pergunto..se tivessem sido vítimas de abortos, não teriam oportunidade de opinar asneiras.No entanto possuem essa dádiva e a usam para apoiar assassinato.

    • Sim, homens discutindo o que bem entenderem. Como as mulheres devem ser livres para tal também. Ou você acha que entende mais do assunto do que 45% dos obstetras/ginecologistas que são homens? Que falácia estúpida.

  2. Doutor Rafael, obrigado por ser um médico que se preocupa com a vida humana em sua situação mais frágil! O senhor não representa apenas a opinião da classe médica, mas boa parte da população brasileira quando defende a legislação do aborto atual.
    Deixo meu muito obrigado ao senhor.

  3. ué o instituto liberal de são paulo está indo contra uma liberdade individual? é isso mesmo?
    mulher não é indivíduo pra ter liberdade ou não existe representação verdadeira de liberalismo mesmo?

  4. Favor, comentar sobre possíveis problemas com o parto normal que não são divulgados, como por exemplo, problemas mentais na criança por ter a cabeça pressionada durante alguns partos…

  5. O artigo ajuda no contraponto e enriquece o debate. Só tive a impressão que o doutor não passou segurança e convicção sobre o tema do parto cesariano. Há médicos que induzem à cesárea por puro comodismo e conveniência pessoal. Só que não se pode admitir isso publicamente.

  6. Não vou falar que eu estou surpresa, porque isso seria uma mentira. Mas como é que pode uma jornalista:

    a)interromper tanto o entrevistado;
    b)não fazer pelo menos uma pesquisa sobre o assunto que ela vai conversar com o especialista para na hora não falar abobrinha;
    c)pensar que só porque ela não sentiu dor, outras mulheres estão exagerando.

    Eu fiquei irritada com o comportamento dela.

  7. Fecundação se dá no momento quando um espermatozoide fecunda um óvulo.A partir dai há a multiplicação celular do ovo fecundado dando origem a uma nova vida! Portanto interromper a gravidez é cometer um aborto. Interromper a gravidez durante a gestação é o “melhor” exemplo de matar sem dar chance de defesa.Mais responsabilidade e menos liberdade neste caso!

  8. Do ponto de vista da Biologia, a vida começa na concepção. Portanto, interromper a gestação é matar. “Aborto espontâneo” é pleonasmo. “Aborto” é a morte da criança, durante a gestação devido a um acidente ou a uma doença. Se interrompermos a gestação de um animal, estaremos matando a cria desse animal, quanto mais, uma vida humana. Matar uma pessoa durante a gestação é o “melhor” exemplo de matar sem dar chance de defesa.

    • Cara,
      Sou contra o aborto, como você, mas pare de repetir o que seu pastor favorito falou.

      -Não existe definição de vida na biologia.

      Isso mesmo. A vida NÃO começa na concepção, pois nem definição de vida existe. Uma célula tronco, no meu corpo, NÃO é e NUNCA será (eu espero) um ser humano, apesar de ter DNA humano completo.

      • Segundo a Biologia, ser vivo é todo indivíduo composto por uma ou mais célula. Ou seja…

      • Toma lá champs:

        1 – propriedade que caracteriza os organismos cuja existência evolui do nascimento até a morte
        2- Um sistema capacitado a submeter-se ao processo de evolução por seleção natural (que envolve replicação, mutação, e replicação de mutações)
        3 – Conjunto de atividades e funções orgânicas que constituem a qualidade que distingue o corpo vivo do morto”

        Britannica”. A definição metabólica descreve como sistema vivo o “objeto com limite definido capaz de trocar materiais com o meio sem alterar, por algum tempo, suas propriedades originais”

        63 Definições de Vida (aos olhos da Biologia)
        Jean Baptiste LAMARCK (1802)

        “A vida é uma ordem ou um estado das coisas das partes componentes de um corpo, que torna o movimento orgânico possível e que efetivamente têm êxito, conforme persiste, em se opor à morte.”

        Ludwig BÜCHNER (1855)

        “A geração espontânea existe, e formas superiores se desenvolveram gradual e vagarosamente das formas inferiores pré-existentes, sempre determinada pelo estado da Terra, mas sem influência imediata de um poder superior.”

        Rudolf VIRCHOW (1855)

        “A vida sempre permanecerá algo à parte, mesmo se nós descobrirmos que ela é mecanicamente criada e propagada aos mínimos detalhes. “

        Ernst HAECKEL (1866)

        “Qualquer hipótese detalhada sobre a origem da vida deve, até agora, ser considerada sem valor, porque, até esse momento, nós não temos informações satisfatórias sobre as condições extremamente peculiares existentes na Terra no momento em que os primeiros organismos se desenvolveram.”

        Thomas Henry HUXLEY (1868)

        “As forças vitais são forças moleculares.”

        Justus von LIEBIG (1868)

        “Nós só podemos assumir que a vida é tão antiga e tão eterna quanto a matéria ela mesma…Por que a vida orgânica não pode ser pensada como presente desde o começo, assim como o carbono e seus componentes, ou como toda a matéria incriável e indestrutível em geral?”

        J. BROWNING (1869)

        “Não há uma linha limite entre as substâncias orgânicas e as inorgânicas…Raciocinando por analogia, acredito que nós devemos antes de uma longa busca considerar uma tarefa igualmente difícil fazer uma distinção entre as formas inferiores da matéria viva e da matéria morta.”

        L. S. BEALE (1871)

        “A vida é um poder, uma força ou uma propriedade de um tipo especial e peculiar, temporariamente influenciando a matéria e suas forças ordinárias, mas inteiramente diferente de, e de nenhuma maneira correlata a, qualquer destas.”

        H. C. BASTIAN (1872)

        “As coisas vivas são agregados peculiares de matéria comum e uma força comum na qual em seus estados separados não possuem as qualidades de agregação conhecida como vida.”

        Claude BERNARD (1878a)

        “A vida não é nem um princípio nem um resultante. Não é um princípio porque esse princípio, de alguma forma dormente ou expectante, seria incapaz de agir por si mesmo. A vida não é também um resultante, visto que as condições físico-químicas que governam as suas manifestações não podem dotá-la de qualquer direção ou de qualquer forma definida… Nenhum desses dois fatores, nem o princípio diretor do fenômeno, nem o conjunto das condições materiais para a sua manifestação, podem, sozinhas, explicar a vida. A sua união é necessária. Em consequência, a vida é para nós um conflito.”

        Claude BERNARD (1878b)

        “Se eu tivesse que definir a vida em uma única frase…Eu diria: a vida é criação.”

        Friedrich ENGELS (c. 1880)

        “Nenhuma fisiologia é tomada como científica se não considera a morte como um fator essencial da vida…A vida significa morrer.”

        Herbert SPENCER (1884)

        “A mais ampla e mais completa definição de vida será “o contínuo ajustamento de relações internas e externas”.

        August WEISMANN (c.1890)

        “O organismo vivo já foi comparado com um cristal, e a comparação é, mutatis mutandis, justificável.”

        Wilhelm PFEFFER (1897)

        “Mesmo o melhor conhecimento químico dos corpúsculos ocorrendo no protoplasma não é mais suficiente para a explicação e entendimento dos processos vitais, do que o mais completo conhecimento químico do carvão e do ferro é suficiente para o entendimento de um motor a vapor.”

        A.B. MACALLUM (1908)

        “Quando procuramos explicar a origem da vida, não nos é requerido postular um organismo altamente complexo… como sendo o genitor primitivo de todos, mas antes um que consiste de poucas moléculas somente e de tal tamanho que é além do limite da visão com os maiores poderes do microscópio.

        A. PETTER (1923)

        “É a maneira particular da composição dos materiais e processos, sua organização espacial e temporal que constitui o que chamamos de vida.”

        Alexander OPARIN (1924)

        “Quais são as características da vida? Em primeiro lugar há uma estrutura definida ou organização. Então há a habilidade dos organismos em metabolizar, em reproduzir outros como si mesmos, e também suas respostas à estimulação.”

        J. H. WOODGER (1929)

        “Não parece necessário pararmos na palavra “vida” porque esse termo pode ser eliminado do vocabulário científico pois é uma abstração indefinível e nós podemos seguir em frente perfeitamente bem com o “organismo vivente” que é uma entidade que pode ser especulativamente demonstrado.”

        Ludwig von BERTALANFFY (1933)

        “Um organismo vivo é um sistema organizado em ordem hierárquica de várias partes diferentes, no qual um grande número de processos são dispostos de tal forma que pelo meio de seus relações mútuas, dentro de amplos limites com mudanças constantes dos materiais e energias constituindo o sistema, e também apesar dos distúrbios condicionados por influências externas, o sistema é gerado ou permanece num estado característico dele, ou esses processos levam à produção de sistemas similares.”

        Niels BOHR (1933)

        “A existência da vida deve ser considerada como um fato elementar que não pode ser explicado, mas deve ser tomado como um ponto inicial na biologia, de uma maneira similar que a quantidade de ação, que aparece como um elemento irracional do ponto de vista da física clássica, considerada conjuntamente com a existência das partículas elementares, formam a fundação da física atômica.”

        Erwin SCHRÖDINGER (1944)

        “A vida parece ser um comportamento ordenado e legalista da matéria, não baseado exclusivamente em sua tendência de ir da ordem à desordem, mas baseado parcialmente na ordem existente que é mantida.”

        J. ALEXANDER (1948)

        “O critério essencial da vida é duplo: (1) a habilidade em direcionar a mudança química pela catálise, e (2) a habilidade de reproduzir por autocatálise. A habilidade de sofrer alteração herdável na catálise é geral, e é essencial onde há competição entre diferentes tipos de criaturas vivas, como foi o caso na evolução das plantas e dos animais.”

        J. PERRETT (1952)

        “A vida é um sistema potencialmente auto-perpetuador aberto de reações orgânicas interligadas, catalisadas gradativamente e quase isotermicamente por catalisadores orgânicos complexos e específicos que são por si mesmos produzidos pelo sistema.”

        R. D. HOTCHKISS (1956)

        “A vida é a reprodução repetitiva da heterogeneidade ordenada.”

        Norman HOROWITZ (1959)

        “Sugiro que essas propriedades – mutabilidade, autoduplicação e hetero-catálise – englobam uma definição necessária e suficiente da matéria viva.”

        Herman MULLER (1966)

        “Está viva qualquer entidade que detém as propriedades de multiplicação, variação e hereditariedade.”

        John BERNAL (1967)

        “A vida é uma parcial, contínua, progressiva, multiforme e condicionalmente interativa, auto-realização das potencialidades dos estados dos elétrons atômicos.”

        Jacques MONOD (1970)

        “Os seres vivos são máquinas teleonômicas, máquinas auto-construtoras e auto-reprodutoras. Existem, em outras palavras, três características fundamentais em comum em todos os seres vivos: a teleonomia, a morfogênese autônoma e a reprodução invariante.”

        Lila GATLIN (1972)

        “A vida é uma hierarquia estrutural de unidades funcionais que adquiriu ao longo da evolução a habilidade de armazenar e processar a informação necessária para sua própria reprodução.”

        P. FONG (1973)

        “A vida é composta de três elementos básicos: matéria, energia e informação…Qualquer elemento da vida que não for matéria e energia pode ser reduzido à informação.”

        Leslie ORGEL (1973)

        “Os seres vivos são CITROENS (Complexos de Informação-Transformação Reprodução Objetos que Evoluem por Seleção Natural.)”

        John MAYNARD SMITH (1975)

        “Consideramos como vivas quaisquer populações de entidades que detém as propriedades da multiplicação, hereditariedade e variação.”

        E. ARGYLE (1977)

        “A vida na Terra hoje é um processo altamente degenerado no qual há milhões de séries de genes (espécies) que se escreve a única palavra “vida”.”

        Clair Edwin FOLSOME (1979)

        A vida é aquela propriedade da matéria que resulta de um ciclo dual de bioelementos em soluções aquosas, ultimamente dirigidas pela energia radiante para alcançar a máxima complexidade”

        Manfred EIGEN (1981)

        “O mais notável atributo da organização biológica é sua complexidade…O problema da origem da vida pode ser reduzido à questão: “Existe algum mecanismo no qual a complexidade pode ser gerada de um modo regular e reproduzível?”

        E. H. MERCER (1981)

        “O dispositivo único que distingue, e por isso a característica definidora, de um sistema vivo é que ele é um suporte material transiente de uma organização com a propriedade de sobrevivência”

        E. HAUKIOJA (1982)

        “Um organismo vivo é definido como um sistema aberto que é capaz de manter a si mesmo como um autômato…O funcionamento de um autômato a longo prazo é possível apenas se existir uma organização construindo um novo autômato.”

        Peter SCHUSTER (1984)

        “A unicidade da vida aparentemente não pode ser traçada a um simples dispositivo que está ausente no mundo não-vivo. É a presença simultânea de todas as propriedades características…e eventualmente muitas mais, que faz a essência de um sistema biológico.”

        V. CSÁNYI e G. KAMPIS (1985)

        “É sugerido que a replicação – um processo de cópia alcançado por uma rede especial de inter-relação dos componentes e os processos de produção de componentes que produz a mesma rede daquela que a produz – que caracteriza o organismo vivo.”

        R. SATTLER (1986)

        “Um sistema vivo é um sistema aberto que é auto-replicante, auto-regulador, e se alimenta de energia do meio-ambiente.”

        S. LIFSON (1987)

        “Assim como a dualidade onda-partícula significa sistemas microscópicos, a irreversibilidade significa sistemas termodinâmicos, e grupos com simetria espacial são tipicamente de cristais, assim, organização e teleonomia significam matéria animada.”

        Gerald EDELMAN (1988)

        “Os objetos animados são sistemas auto-replicadores contendo um código genético que sofre mutação e cujo os indivíduos variantes sofrem seleção natural.”

        Christopher LANGTON (1989)

        “A vida artificial pode contribuir para a biologia teórica ao localizar a vida-como-conhecemos dentro de uma figura mais ampla de a vida-como-ela-pode-ser.”

        A. BELIN e J. D. FARMER (1992)

        “A vida envolve: (1) um padrão no espaço-tempo (antes de um objeto material específico); (2) auto-reprodução, em si mesma ou num organismo correlato; (3) armazenamento de informação de uma auto-representação; (4) metabolismo que converte matéria/energia; (5) interações funcionais com o meio-ambiente; (6) interdependência das partes dentro do organismo; (7) estabilidade sob perturbações do meio-ambiente; e (8) a habilidade de evoluir.”

        Stuart KAUFFMAN (1993)

        “A vida é uma propriedade esperada, coletivamente auto-organizada dos polímeros catalíticos.”

        A. de LOOF (1993)

        “A vida é a habilidade de comunicar.”

        Claus EMMECHE (1994)

        “A vida em si mesma é um fenômeno computacional.”

        Definição da NASA (Gerald JOYCE, 1994)

        “A vida é um sistema químico auto-sustentado capaz de sofrer a evolução darwiniana.”

        André BRACK (1996)

        “A vida é um sistema químico capaz de replicar-se a si mesmo por autocatálise e de cometer erros que gradualmente aumentam à eficiência da catálise.”

        Sidney FOX (1996)

        “A vida consiste de corpúsculos proteináceos formados de uma ou mais células contendo membranas que permitem a ela se comunicar com o meio-ambiente via transferência de informação por impulso elétrico ou substância química, e é capaz de evolução morfológica pela auto-organização dos precursores, e mostra atributos de metabolismo, crescimento e reprodução. Essa definição compreende ambas a protovida quanto a vida moderna.”

        Tibor GÁNTI (1996)

        “Ao nível celular os sistemas vivos são autômatos proliferadores fluidos químicos controlados por programa, a organização fluida que é uma organização chemoton [sic]. E a vida em si mesma – a nível celular – não é nada mais do que a operação desses sistemas.”

        Jesper HOFFMEYER (1996)

        “A unidade básica da vida é o signo, não a molécula.”

        Abir IGAMBERDIEV (1996)

        “A vida é uma atividade auto-organizada e auto-geradora de sistemas abertos não-equilibrados determinados pelas suas estruturas semióticas internas.”

        Francisco VARELA (1996)

        “Um sistema físico pode ser dito como vivo se é capaz de transformar a energia/matéria externa em processos internos de auto-manutenção e auto-geração. Esse senso comum, uma definição macroscópica, encontra seu equivalente ao nível celular na noção de autopoiesis. Isso pode ser generalizado para descrever o padrão geral da vida mínima, incluindo a inteligência artificial. Na vida real, a rede autopoiética de reações está sob o controle de ácidos nucleicos e proteínas correspondentes.”

        F. HUCHO e K. BUCHNER (1997)

        “A transdução de signal é uma característica fundamental da vida assim como o metabolismo e a auto-replicação.”

        R. S. ROOT-BERNSTEIN e P. F. DILLON (1997)

        “Organismos vivos são sistemas caracterizados por serem altamente integrados através do processo de organização guiado por (e mais altos níveis de) complementariedade molecular.”

        Kalevi KULL (1998)

        “Um organismo é um texto para si mesmo pois ele requer leitura e representação de suas próprias estruturas para sua existência, por exemplo, para crescimento e reparação. Ele também usa a leitura da sua memória quando em funcionamento. Isso define um organismo como um texto auto-leitor.”

        Huber YOCKEY (2000)

        “O caráter segregado, linear e digital da mensagem genética é um fato elementar e, portanto, essencialmente uma definição de vida. Eles são um golfo entre os organismos vivos e a matéria inanimada.”

        Thomas SEBEOK (2001)

        “Porque não pode haver semiosis sem interpretabilidade – certamente a propensão cardinal da vida – a semiosis pressupõe a identidade axiomática da semiosfera com a biosfera.”

        David ABEL (2002)

        “A vida é uma sinfonia de processos algorítmicos dinâmicos e altamente integrados que produzem um metabolismo homeostático, desenvolvimento, crescimento e reprodução.”

        David KOSHLAND (2002)

        “Se eu estivesse na Grécia antiga, criaria uma deusa da vida a qual eu chamaria de PICERAS, … porque existem sete princípios fundamentais (os Sete Pilares da Vida) nos quais um sistema vida está baseado: P (Programa), I (Improvisação), C (Compartimentalização), E (Energia), R (Regeneração), A (Adaptabilidade), e S (Seclusão).”

        Edward TRIFONOV (2002)

        • “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.”
          “Eu vim para que tenham Vida; é Vida Plena.”
          JC

      • Um zigoto não faz parte do seu corpo, é a mistura de dois gametas, o que gera um novo indivíduo. O que o Lex falou é bastante correto, há várias definições e conceitos de vida, o que não há é consenso.

  9. Eu sempre fui muito liberal, mas com o passar dos anos, com a idade e a experiência que se acumularam, fui percebendo que tudo o que é demais é prejudicial, até mesmo água e até ar. Creio que até os mais lindos sentimentos passam a ser prejudiciais. Até o amor em excesso pode ser prejudicial. A liberdade não foge à regra.
    Por isso, antes que eu percebesse, eu carreguei a minha personalidade com uma boa dose de conservadorismo. Atualmente, eu diria que sou liberal-conservador. Não concordo com o libertarianismo.
    Já fui francamente a favor do aborto, mas hoje eu sou contrário ao aborto fora dos casos já autorizados pela lei (estupro ou risco para a gestante) ou admitido por jurisprudência do STF (anencefalia).

    • Não existe nada de errado com a liberdade.

      O problema é que:
      -As pessoas querem apenas liberdade, mas não a responsabilidade necessária;
      -Muitos vícios destruidores são vistos como liberdade, mas são exatamente o oposto a liberdade.

  10. Olá, o que posso falar é sobre informação sonegada. Médicos sonegam informações em cirurgia eletiva, sim, Caro Dr. Raphael Câmara. Por exemplo, na urologia, a cirurgia de varicocele é utilizada para tratar infertilidade, com margem de sucesso apenas razoável, mas os médicos sonegam todos os riscos do procedimento ao paciente – quase todos : Hidrocele iatrogênica, hérnia incisional, lesão do pleno nervoso inguinal, lesão da artéria, lesão dos linfáticos, recidiva. É uma cirurgia com grande número de complicações e a maioria dos médicos se limita a dizer que é apenas “simples”. Resultado: Estamos com uma epidemia de hidrocele, uma doença de homens velhos, entre jovens com menos de 35 anos. Condição que requer outra cirurgia com taxas de morbidade altas.

  11. Só faltou falar que crianças não-batizadas não podem ir para o Paraíso. Ambos os lados, os que são a favor e os que são contra, só mencionam os aspectos materiais da questão. Mas isso é óbvio, à medida que a sociedade se afasta de Deus e da verdadeira Fé, as pessoas só se preocupam com coisas temporais em vez das eternas.

      • Obviamente você nunca leu a Bíblia capa a capa… Afinal não houve bebês afogados no suposto dilúvio?

        • Certamente Deus trouxe o dilúvio sobre a Terra para julgar o pecado da humanidade. Com isso, devem ter sido inúmeros os bebês mortos. Mas isso não significa que tais bebês não foram para o Paraíso.

          “Jesus, porém, disse: Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim, porque dos tais é o Reino dos céus.” (Mateus 19:14)

  12. Fiquei com uma dúvida: quantas mulheres, segundo as estatísticas, tem que morrer por ano, então, pro aborto ser legalizado?

      • Quantas que usam métodos contraceptivos e engravidam são necessárias pra você entender que o índice de eficácia dos métodos contraceptivos é menor que você imagina?

        • Quantas tem que morrer para o governo começar a falar que o sexo não é um brinquedo? Genitais não são brinquedos, isso serve tanto para os homens quanto para as mulheres.

          • Exatamente, Lucas!

            E que culpa tem o bebê pela imoralidade de homens e mulheres, que só buscam o prazer e não têm freio moral!

            Que argumento tão “inteligente” poderia ser usado para justificar o homicídio cruel de um inocente?

            Muito triste o ponto que nossa sociedade chegou! Só de se considerar a possibilidade dessa barbárie já mostra a incrível decadência moral do nosso povo! Muito triste!

    • Não é o número de mulheres mortas que determinará a legalização do aborto. Por essa lógica, já teríamos a pena de morte no Brasil há muito tempo…

    • Quantos fetos devem ser mortos por ano para as pessoas serem mais responsáveis? Para aprenderem a usar uma camisinha? E o artigo só mostra que os defensores do aborto têm de MENTIR para defender esse crime.

    • Isso é tão idiota quanto perguntar quantos negros têm que morrer por ano para que os crimes violentos sejam abolidos do Código Penal.

      Ou quantas mulheres têm que ser presas para abolirmos o tráfico de drogas…

    • Quantas mais vidas de bebês inocentes, que não têm culpa da vida promíscua da ninguém, os ativistas pró-aborto desejam matar?

    • Talvez um número maior do que morreriam se seguissem a gestação, talvez um número maior do que com o aborto legal…

      Sendo apenas pragmático, se for para ser ético, acho q a resposta é Nunca deverá ser.

    • Quantas vezes o artigo precisa ser lido para entender que não há relação de mortes maternas com o aborto? Pare de servir de massa de manobra.

    • o numero de mulheres que devem morrer para que o aborto seja legalizado eu não sei, mas o numero de crianças que devem morrer para que o aborto continue ilegal é 1.

    • O índice de mulheres que engravidam com métodos contraceptivos deve ser o mesmo das mulheres que não sabem contar a cartela de pílulas ou das fazem sexo com estranhos sem usar preservartios. Burros e burras sempre acabam gerando uma vida por trepar sem responsabilidade.

  13. Ótimo artigo, parabéns!
    Ainda tem gente que confunde ser liberal, com libertário, ou pior, “libertinário”.
    De que adianta a liberdade sem a vida?

    • Fala bobagem não. Maioria dos libertários que conheço são contra o aborto. É um questão ética e não de liberdade. Abortar um feto não é a mesma coisa de um cara jogar algum objeto dele fora, pq feto não é objeto e portanto não é propriedade privada de alguém.

  14. Excelente artigo!
    A vida é o bem maior, e a liberdade deve respeitar isso. Liberdade sem parâmetros, limites e valores, vira baderna.
    Isso diferencia os liberais dos libertários, libertinários, e, principalmente dos esquerdoPaTas.

  15. Gostei muito desse artigo. O aborto é um tema polêmico e por este motivo é muito importante o rigor científico na divulgação dos dados

  16. Melhor mudar o nome para instituto conservador de São Paulo, porque já saiu do liberalismo econômico para meter o bedelho no que as pessoas podem ou não fazer. Drogas pode usar a vontade, mas aborto?

    • Liberais defendem os direitos à vida, liberdade e propriedade. Logo, isto inclui ser contra o assassinato. Não é necessário ser conservador para ser contra o aborto.

        • Xará, o aborto não só é assassinato, quanto também é uma crueldade abominável.

          Como pode fazer um bebê inocente pagar com a própria vida a irresponsabilidade de um homem, ou de uma mulher, ou de ambos?

      • Você tem paciência em responder alguém que se intitula como Ninguém e como você mesmo disse eu por exemplo sou um libertário e sou contra o aborto, acho que a partir do momento que você entra em uma relação tanto você quanto o seu parceiro estão cientes das consequências e para mim não existe liberdade sem responsabilidade, apenas uma exceção a não ser que seja algo forçado como um estupro nesse caso sim eu sou a favor

      • A mulher tem direito à vida e à liberdade. A decisão do aborto deve ser única e exclusivamente dela. Agora a definição de vida (do ponto de vista biológico ) é um assunto controverso. Dependendo do país a vida só se inicia após os 3 meses de gestação. Em outros a partir da nidação . Assim o aborto dependendo do conceito pode ser realizado, sem ser considerado um atentado ao direito à vida.

        • A criança tem direito a vida e a liberdade também. ela NÃO tem culpa de ser fruto de um estupro ou qualquer coisa. Tampouco tem culpa de nascer de uma mãe que seria capaz de matar seu prórprio filho. Quer deixar a mulher livre, deixe a, que ela tenha seu filho e se, caso não querê-lo, ela que o ponha na adoção. Não importa o caso, aborto é assassinato e qualquer argumento contra isso é negar um realidade inevitavel. Em casos de estupro, considero que não se dever pagar um crime com outro. PEço que vc repense sua opnião, porque ao meu ver, ainda sim defende assassinato.

          • Criança apenas após os 18 meses de nascimento. Feto não é criança.

          • Leonardo,

            Concordo contigo! Nem mesmo em caso de estupro se deveria assassinar o bebê inocente.

            Em caso de estupro (que é algo horrível e que jamais deveria acontecer), a culpa é do estuprador. Se fosse o caso de alguém morrer, que fosse o estuprador, e não a criança inocente.

            E como a vítima dessa barbárie faria algo ainda pior, matando seu próprio filho?!

        • “A mulher tem direito à vida e à liberdade. A decisão do aborto deve ser única e exclusivamente dela.”

          Por essa lógica, o homem também tem direito a sua própria vida e liberdade, desse modo, caso a mãe opte por ter o filho, o homem não poderá ser obrigado a sustenta-lo com pensões por exemplo, se ela pode se escusar da responsabilidade que tem com a criança matando-a na gestação, o homem também deve ter o direito de se escusar de criar filho que não queira.

          Ate onde eu sei, liberdade vem em grande parte da capacidade de assumir responsabilidades.

    • Pois é “ninguém”, os liberalistas se (i) contradizem e (ii) torcem fatos biológicos.

      (i) ss contradizem quando dizem defender a propriedade (que é uma espécie) mas passam relativizam a auto-proriedade (direito ao seu corpo) da mulher. O corpo é dela, e entre o feto e vc (e sua moral ou ideologia) há um CORPO. Ninguém pode tocar nele ou dizer o q ele pode fazer e ponto final.

      (ii) só há formação de cérebro aos 3 meses, logo, não há que se falar em assassinato para quem não é ainda uma pessoa humana (só humanos com cérebros possuem amparo legal, por essa razão pode-se abortar anencefalos ou desligar aparelhos para pessoas com morte cerebral).

    • Feto não é escova de dente. Não é objeto. E não é lei alguma que define o que é vida ou o que é ser humano ou não. Tem tanto argumento pra ser usado e a galera se prende a falácias bobocas.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here