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Como a troca de figurinhas mostra a eficiência do livre mercado

A eficiência do livre mercado é tão óbvia e natural que até crianças, quando trocam figurinhas, a entendem bem.

Entendem mais, inclusive, que muitos adultos, que já viveram o bastante para desaprender com o keynesanismo e o marxismo.

Na roda de troca de figurinhas funciona assim: para você poder pegar uma repetida de alguém, você precisa, primeiramente, trazer as suas repetidas para a roda.

É a lei de Say: um produto produzido permite que se adquira, no mercado, um outro produto de igual valor. Não dá para consumir sem, antes, ter produzido.

Não dá, portanto, para chegar lá de mão abanando; tem que ter figurinhas repetidas na mão.

E não adianta você escrever num papel “Vale 1 figurinha”, e querer trocar isso por figurinhas de verdade. Algumas crianças podem até aceitar isso de início, mas quando virem que os amigos estão cheios de papel mas há pouca figurinha no mercado, vão logo te dizer: esse papel cada vez vale menos; eu quero mesmo é figurinha.

Política inflacionária keynesiana não funciona nem em roda de figurinhas.

Mas você sabe como produzir as figurinhas para o mercado: toda semana você abrirá os pacotinhos novos que ganhou dos pais, consumirá no álbum as figurinhas inéditas, e levará ao mercado aquelas repetidas.

Isso porque depois que você cola uma figurinha inédita no álbum, as outras figurinhas iguais a essa têm menos utilidade para você.

É melhor trocá-las, pois você entende que um álbum mais completo, com uma cesta mais diversificada de figurinhas, aumenta o seu bem-estar.

As trocas estão indo bem, e você consegue uma figurinha ou outra para trocar. Mas há um problema: você precisa trocar muitas figurinhas, mas a sua roda de amigos não tem o que você precisa.

A roda de figurinhas do seu bairro tem pouca variedade; é uma economia precária, pouco produtiva, pouco desenvolvida.

Até que um dia chega uma família nova no bairro, trazendo investimento de capital. Lembra daquele seu amigo rico, que sempre ganhava dezenas de pacotinhos dos pais, e que vinha com um bolo enorme de repetidas?

Então, ele tinha capital.

Todo mundo ia em cima dele; mas você também ia, pois ele tinha o que você precisava para completar o álbum. O excesso de produção dele era um benefício para você e toda a comunidade. Agora você finalmente podia obter, via troca, aquilo que o seu mercado não oferecia antes de ele chegar.

E ainda que ele já tivesse todas as repetidas que você tinha, para ele ainda era vantajosa a troca de figurinhas, pois ele podia reequilibrar o número de repetidas (trocando uma muito repetida por uma menos repetida).

Viu como te beneficiava o excesso de produção dele?

Viu como o capital dele aumentava o seu bem-estar?

Indiretamente, ele tornou os álbuns de toda a sua comunidade mais ricos.

Essa é a mágica do livre mercado: a maior produtividade de uma pessoa torna a todos nós mais ricos.

“Ah, mas ele completará o álbum antes! Isso não seria desigualdade?”, você questiona.

É óbvio que ele, sendo mais produtivo (por conta do seu capital), completará o álbum antes.

Mas o esforço de geração de riqueza que lhe permite completar o álbum é o mesmo esforço que gera excedentes para o mercado, que permite redução de custos e que permite que você, também você, complete o álbum.

Quanto mais pacotinhos ele tiver, mais rápido ele completa o álbum dele; mas mais rápido também ele traz repetidas para a roda, contribuindo para o álbum de todos.

É evidente que o processo de geração de riqueza gera, concomitantemente, desigualdade. Não tanta desigualdade quanto se o estado viesse regular a troca de figurinhas (quantos álbuns dos amigos do rei o BNDES não completaria?), mas algum grau de desigualdade.

Mas note que, infelizmente, a economia de uma sociedade não é feita de peças de Lego; não é possível separar, como dois sistemas estanques, a geração de riqueza e a distribuição de riqueza. Pensar assim é um erro fundamental e, infelizmente, muito comum.

Porque se você disser ao amigo rico que agora ele tem de dividir igualmente os pacotinhos novos, você cria um outro problema: há grandes chances de que ele não tenha mais tanto interesse em pedi-los aos pais, e talvez passe a pedir outro presente.

Sua roda ficará menos diversificada; mais pobre, enfim.

De minha parte, achava o máximo o amigo rico que inundava nossa roda de repetidas; me permitia o consumo. Meus álbuns ficavam melhores assim.

Antes de ver o livre mercado como “exploração” ou outros erros do tipo, lembre-se das rodas de figurinha da sua infância; o livre mercado é uma das mais primorosas formas de cooperação humana já inventadas.

PS: Na história, “ganhar dos pais” é uma metáfora para trabalhar, produzir. “Pais que dão mais”, na história, refere-se a capital maior. Assim, se você se esforça muito para produzir trigo com as mãos, você produzirá menos do que alguém que produza com máquinas (e que por isso precisará de menos esforço). Não importa o esforço pessoal, mas sim o resultado subjetivamente valorado pelos outros atores.

Gustavo Maultasch
Diplomata, doutorando em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago e coordenador do Livres-DF.

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