Como o comércio alivia a pobreza nas ruas da Guatemala

Depois de um mês vivendo em uma das regiões mais pobres da Cidade da Guatemala, volto com uma observação curiosa sobre o modo de vida e o cotidiano locais, indo além dos gritantes e chamativos banners de fast-food que abarrotam as rutas da zona central da capital.

As ruas guatemaltecas, em especial em concentrações populacionais mais densas e de menor poder aquisitivo, são marcadas pela presença impressionante de pequenos estabelecimentos – entre tiendas, tortillerias, farmácias, “pacas” (venda de roupas usadas) entre outras, das mais variadas vendas para distintas necessidades. Em especial em zonas mais pobres da região metropolitana, os negócios são familiares e localizados no quarto mais próximo da rua das casas – ou seja, neste artigo não estou comentando franquias ou shoppings, e sim rudimentares, informais, incontroláveis constituições de pontos comerciais por pessoas comuns, sem capital significativo ou cursos de gestão.

Apontada como sinal das altas taxas de pobreza absoluta no país, a proliferação do comércio informal pode justamente indicar uma outra faceta: uma vitalidade e empreendedorismo que estão ajudando o país a ascender economicamente, tendo apresentado taxas consistentes de crescimento de renda desde meados dos anos 90, com o fim de sua Guerra Civil e uma maior abertura econômica. Ainda que permaneça sufocada pela corrupção descarada (em 123º no ranking da ONG Tranparency International; o Brasil ocupa a 76ª posição), com um desenvolvimento muito aquém do potencial, a sociedade guatemalteca parece dar sinais de não querer ficar presa no populismo de promessas fáceis e mentiras descaradas, em um jogo de interesses escusos que renega a possibilidade de real desenvolvimento por uma de pequenos favores e migalhas – como perceptível no esforço de sua gente e nas últimas eleições, em que um comediante foi eleito por ser o único candidato fora do establishment clássico no poder desde a redemocratização, todos comprovadamente corruptos.

Ainda que responsável em parte pela baixa eficiência arrecadatória nos países centro-americanos, suas economias informais são responsáveis por cerca de 60,8% dos empregos, constituindo 42% da riqueza guatemalteca e 47% do PIB da América Central. Ademais, questiona-se se seria mesmo uma vantagem os governos locais terem o poder de extrair maior fatia das produções de seus governados, visto a corrupção endêmica e em todos os níveis de poder – nem preciso fazer a comparação com o Brasil, seu Estado de 46% (considerado o déficit) do nosso produto, e a qualidade dos serviços aqui ofertados, não é?

Tendo em vista que a maior parte dos novos negócios no pais se origina de forma autônoma e sem registros ou profissionalização, coibir esta prática significaria a perda de meios de subsistência, desenvolvimento e riqueza para cerca de 12,3 milhões de famílias centro-americanas – entre tantos outros que sofrem com a repressão ao comércio “desregrado” ao redor do mundo – com 72,7% e 63,6% dos sem educação e primeiro nível educacional incompleto, respectivamente, empregados no setor informal, mas mesmo 19% daqueles com nível superior nesta atividade.

Digo isso pois estes pequenos empresários – que raramente se intitulam como tal, dado que classificam seu modo de vida como pura subsistência – estão fomentando um mecanismo virtuoso de autonomia econômica que rompe com os círculos viciosos de pobreza e dependência tão comuns na América Latina – e caros a muitos de seus governantes, que preferem ver suas populações fragilizadas e suscetíveis a comprar suas mentiras.

A miséria se eterniza na falta de educação, no subdesenvolvimento e na falta de oportunidades de países fechados, no saque pelo governo para o proveito de governantes e seus amigos – e, nisso, ter o próprio negócio se estabelece como uma forma de fugir da rota circular.

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Não é só o comércio. Existem cada vez mais escolas particulares como esta, de robótica, sistemas e inglês técnico, mesmo em regiões rurais da Guatemala.

O rompimento com a pobreza continuada se dá de distintas formas, e em muitas delas se inclui os comércios locais como fortes catalisadores de mudança. Ao ter um meio de subsistência autônomo, o pequeno empresário deixa de necessitar de ajudas de curto prazo e de favores de terceiros, bem como cria vias meio mais perceptível entre essas populações – a distribuição de privilégios pelo Estado. Ao fazê-lo, empodera toda sua família, que agora passa a não prescindir de terceiros para sua educação, saúde ou nutrição. Isto abre possibilidade para que estes indivíduos creiam mais em seus próprios esforços e capacidades, valorando suas conquistas e vendo no próprio trabalho um caminho viável para uma melhora de suas condições.

Ademais, comércios locais estimula toda a população ao redor, dado que geram renda e empregos no seio das próprias comunidades – aumentando a distribuição de renda local e revertendo riqueza de comércio para comércio nas regiões, favorecendo aos poucos uns aos outros.

É possível perceber os efeitos disso ao se comparar as diferenças entre zonais pobres e as mais pobres do pais – em geral mais afastadas da capital, como os estados de Huehuetenango e Alta Verapaz, onde o poder aquisitivo é menor e não há os empregados no emergente setor de serviços (em especial telemarketing), os bairros são mais pobres, e os comércios mais fracos – algo que se repete na vizinha El Salvador. Os meios de se fugir da pobreza são menos presentes e a questão passa a ser mais subsistir que ascender – com presença proporcionalmente maior de anúncios políticos e igrejas evangélicas. Isto também se observa dentro das próprias comunidades – as aldeias mais pobres tem menos comércio, e as ruas com mais comércio em geral apresentam casas mais bem acabadas e maior quantidade de construções.

Em estes também se pode, por exemplo, comprar “a fiado” ou mesmo trocar itens, prática muito comum. Ao conhecer outros moradores da região – e por vezes ter conexões pessoais com muitos deles – o vendedor, ao lucrar e ofertar, também preenche distintas demandas, fornecendo produtos de acordo com as necessidades locais. Isto fomenta uma rede de apoio local, entre moradores e comerciantes, diminuindo a dependência de ajuda externa e de políticos interesseiros.

Como vemos em locais com sistema de preços (e, por conseqüência, de venda) destruídos – como Venezuela ou na antiga União Soviética – é vital a disseminação e diversificação da rede comercial para o bem-estar e segurança nutricional da população. Neste sentido, as tiendas guatemaltecas agem no aumento da oferta local, prescindindo do uso de transporte (caótico no pais, diga-se de passagem) para adquirir materiais básicos, bem como aumentando a concorrência e pressionando preços para baixo.

Sobretudo nas periferias de grandes concentrações urbanas como a Cidade da Guatemala, onde se encontram as mais altas taxas de criminalidade locais, isto aumenta, parafraseando Jane Jacobs, os “olhos nas ruas”. Com maior circulação de compradores, e presença de vendedores interessados em proteger seus estoques, aumenta também a segurança na região como um todo.

Sob outra ótica, o comércio local também se torna ponto de encontro e convívio em comunidades, algo importantíssimo para o estreitamento de laços e o fortalecimento do capital humano na região, algo imprescindível para melhorar os níveis de empregabilidade e atratividade econômica dessas populações, como apontado por diferentes especialistas. Como analisou Francis Fukuyama em A Grande Ruptura, um maior convívio comunitário parece reduzir os níveis de deterioração social e aumentar a confiança entre as populações.

Uma outra faceta que me surpreendeu nas comunidades pobres da Região Metropolitana da capital guatemalteca foi a propagação de escolas particulares. Em um país de escolas públicas de péssima qualidade – com a maior parte das crianças na terceira série analfabetas – a popularidade dos liceos e academias cobrando preços populares é um indicador importante da preocupação da população com os níveis educacionais de seus filhos – algo indispensável para reverter a relativamente alta porcentagem de crianças e adolescentes fora da escola, com apenas 79% das crianças concluindo o ciclo básico (UNESCO) prática ainda aceita e vista como normal em algumas comunidades, como constatado pelo autor.

Além disso, as redes educacionais privadas são importante fonte de renda e emprego regionais, sendo outro contribuinte para a autonomia econômica destas populações hoje mais fragilizadas. Complementarmente, também me deparei com escolas de informática, inglês e tecnologia da informação mesmo em bastiões mais rurais, como Aldea el Carmen – indicando um caminho mais concreto para dilatar o acesso às oportunidades hoje existentes na Guatemala, bem como potencializá-las, já que refletem em maior capital humano regional.

As ruas de pueblos como os de Santa Catalina Pinula, Escuintla, Villa Canales e tantas outras são mais fascinantes quanto mais diversificado e rico é seu comércio. Por ele se analisa um modo de vida, o cotidiano, a realidade da população local. Na Guatemala de hoje, esta realidade significa trabalho duro e contínuo – mas também a constituição de um mecanismo incrível que rompe com os tradicionais cadeados do populismo.

AGRADECIMENTOS
Este texto só foi possível com a contribuição de dezenas de moradores da Guatemala e de El Salvador, por meio de seus depoimentos, cotidianos – e seus mercados, obviamente.

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