Derrubando o mito da “exploração” dos trabalhadores após a revolução industrial

A foto abaixo reaparece de tempos em tempos como se fosse prova definitiva de quão degradante seria o estilo de vida dos trabalhadores antes do socialismo / fascismo aparecerem para “humanizar” as relações de trabalho. Ocorre que o argumento que a imagem tenta provar absolutamente não se verifica na realidade.

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Trata-se aqui de um elevador de carga em uma mina de carvão belga por volta do ano 1900. E a Bélgica, à época, era um dos melhores lugares do mundo para se viver se você fosse pobre ou membro da classe média.

O termo “revolução industrial” não foi cunhado para descrever o processo de industrialização inglês, mas o belga, tendo sido a Bélgica o segundo país do mundo a se industrializar. Na virada do século XIX ao XX, a Bélgica, por seu tamanho diminuto, produzia muito menos que países como Reino Unido ou Alemanha, mas sua indústria era altamente produtiva e utilizava tecnologia de ponta, de tal forma que minerava mais carvão que a França em 1880 mesmo tendo menos de um sétimo da população francesa – a Bélgica era então a quinta maior exportadora de bens industrializados do mundo.

Nessa época o trabalhador belga era um dos mais bem pagos da Europa e o país era o que mais recebia imigrantes estrangeiros do continente. O “Balance-Sheet of The World“, Michael George Mulhall, afirma que o povo belga era “bem alimentado, com consumo de carne maior que o da média continental e o de grãos, 186 litros (anuais) em excesso. (O consumo anual) de cerveja é apenas 1,5 galões abaixo da média inglesa e bem além de qualquer outra nação”. De 1853 a 1891, a renda familiar média do belga cresceu de 840 francos para 1866 francos, ao mesmo tempo em que a intensidade do trabalho familiar diminuiu – em 1853 83,7% das mães belgas trabalhavam fora de casa, mas em 1891 essa proporção tinha caído para 11,2%.

Quando a foto foi tirada, um único mineiro desses produzia mais do que o dobro de uma família inteira de belgas trabalhando o dia todo, todos os dias, antes da revolução industrial. Bem mais, na verdade, já que a média desconsidera que os salários pagos nas regiões norte e leste do país – onde boa parte da população era de linho e algodão feitos manualmente – eram bem mais baixos que os pagos nas zonas industriais de carvão e aço.

É sempre bom lembrar que a primeira lição de Ludwig von Mises, em seu livro As Seis Lições, explica que “a velha história, repetida centenas de vezes, de que as fábricas empregavam mulheres e crianças que, antes de trabalharem nessas fábricas, viviam em condições satisfatórias, é um dos maiores embustes da história. As mães que trabalhavam nas fábricas não tinham o que cozinhar: não abandonavam seus lares e suas cozinhas para se dirigir às fábricas – corriam a elas porque não tinham cozinhas e, ainda que as tivessem, não tinham comida para nelas cozinharem. E as crianças não provinham de um ambiente confortável: estavam famintas, estavam morrendo. E todo o tão falado e indescritível horror do capitalismo primitivo pode ser refutado por uma única estatística: precisamente nesses anos de expansão do capitalismo na Inglaterra, no chamado período da Revolução Industrial inglesa, entre 1760 e 1830, a população do país dobrou, o que significa que centenas de milhares de crianças – que em outros tempos teriam morrido – sobreviveram e cresceram, tornando-se homens e mulheres”.

Alguns parágrafos adiante, Mises continua: “Hoje, nos países capitalistas, há relativamente pouca diferença entre a vida básica das chamadas classes mais altas e a das mais baixas: ambas têm alimento, roupas e abrigo. Mas no século XVIII, e nos que o precederam, o que distinguia o homem da classe média do da classe baixa era o fato de o primeiro ter sapatos, e o segundo, não. Hoje, nos Estados Unidos, a diferença entre um rico e um pobre reduz-se muitas vezes à diferença entre um Cadillac e um Chevrolet”.

Essa é a verdade indigesta que pouca gente quer encarar: a vida antes do capitalismo não era apenas desagradável ou difícil, mas praticamente impossível. Isso é tão verdade que, até o advento da revolução industrial, a produtividade e a expectativa de vida das pessoas permaneceram praticamente idênticas àquela que tínhamos quando aprendemos a escrever! Se nos séculos XIX e XX os operários puderam pegar panfletos e ler livros que denunciavam as condições de vida do próprio trabalho, isso se deve ao capitalismo, já que antes disso nem mesmo a mais alta nobreza podia gabar-se de ter erradicado o analfabetismo em seu meio.

Se hoje não vemos condições de trabalho semelhantes às que supomos ver nessa foto, mesmo entre os países que gozam de maior liberdade econômica e por isso podem ser considerados mais capitalistas, não é nenhum mérito de políticas socialistas / fascistas, mas da própria evolução do capitalismo. A realidade dos fatos prova, na verdade, bem o contrário do que se quer sugerir: é precisamente nos países mais socialistas, onde há menor liberdade de mercado, que as condições de trabalho são mais desumanas.

Para saber mais:

Clique para acessar o harley111.pdf


Clique para acessar o Belgium%20Early%20Industrialization%20Effects%20on%20Workers.pdf


http://www.historicalstatistics.org/

15 COMENTÁRIOS

  1. como vcs me explicam:

    exploração do trabalho
    desemprego em massa
    especulação do capital
    desapropriação de terras
    qualidade de vida em uma sociedade de mercado
    precarização do trabalho
    meios de produção em massa substituindo a mão de obra
    declínio na preservação ambiental
    produção de commodities no 3º mundo
    desigualdade social
    e distribuição de renda.

    só galera fundamentada mesmo comentando. quero que me expliquem estes pontos por favor.

    Sobre o autor, Cesar Horibe. precisa ler mais antes de escrever textos neoliberais a torto e a direita.

  2. “[…] a vida antes do capitalismo não era apenas desagradável ou difícil, mas praticamente impossível”. 200 mil anos de humanidade e só se viveu após a revolução industrial… Ok.

  3. Por menor que o Estado seja, há sempre uma força que o faz se tornar maior: o interesse de todos aqueles que já estão bem estabelecidos e não desejam perder o seu poder. Acontece que a piora observada por esse tipo de comportamento é imperceptível, e o capitalismo por si só não é capaz de combater esse comportamento auto-destrutivo de longo prazo. Então, é verdadeiramente impossível evitar crises, pois não é possível saber quando nem como essas pessoas vão surgir, e nem evitar que elas surjam eventualmente. Num país como o nosso, pior ainda, o brasileiro em geral é egocêntrico, e vai sempre fazer de tudo para se de dar bem, e ainda vai jogar a culpa nos outros. Aqui, é comum formarmos este tipo de pessoas. Por isso, aqueles que nascem aqui e não são assim vão embora… não que isso seja fácil, muitos vão sucumbir injustamente a esse mal, mas fazer o que. Pra quem fica, a vida nem é tão ruim assim… só não é tão boa quanto poderia ser.

  4. Seu argumento de que a vida, antes do capitalismo, descrita como impossível por você, é no mínimo risório. Cara, reconheço vantagens do regime, mas isso que foi escrito é ridículo. Outra coisa, as galinhas que vivem nas granjas de uma Sadia da vida também tem um consumo calórico maior do que as que vivem na natureza, têm acesso a antibióticos e ar refrigerado, mas isso não as tornam, digamos, mais felizes que as demais.

    • Interessante essa analogia com a granja. Uma sociedade onde todos os indivíduos tem condições iguais e padronizadas de vida, a produção é planificada por um organismo central, não há liberdade para iniciativas individuais… Me lembra um regime político-econômico muito alardeado por aí.

    • mas cara o fato é, a riqueza era concentrada em uma parte exclusiva da população, no período feudal era o clero e a nobreza, estes por sua vez recebiam uma quantidade muito alta do trabalho do outro resto da populaçao via tributos e outros meios, a populaçao vivia na miseria isso é um fato, com o advento do capitalismo como sistema de produção( ou simplesmente as trocas sem intervenções de um terceiro) aqueles que vieram a ser os novos ricos(burgueses) eram obrigados a servir a população, que em ultima instancia alem de empregados eram consumidores, e como inicialmente, a regulação ainda não tinha “atacado” qual era o metodo pra se dar bem nesse sistema ? vender mais, e como que se vende mais ? produzindo mais abaixando consequentemente o preço dos produtos, os tornando mais acessíveis às pessoas, logo atingindo toda a parte mais pobre, independente de uma qualidade inferior, todos agora tinham um minimo de conforto que antes somente era destinado às altas castas(que por sua vez acabaram perdendo suas fortunas por não atender às leis de mercado, mas isso é outro papo), tanto que hoje mesmo tu vê isso, em um mercado relativamente livre( que é o cerne central de autores capitalistas) o padrao da massa sempre aumenta por poder consumir mais e tão quanto aqueles que antes serviam. acho que deixei bem lucido, certos erros de ortografia ou gramatica, mas o conteúdo que importa

  5. Elisa Falconni,

    Não sei se você lerá meu comentário. Do fundo do coração desejo que sim.

    As tais “crises capitalistas” são geradas pela intervenção estatal. Veja o caso brasileiro. Depois de uma política econômica desastrosa que começou no segundo mandato do governo Lula e foi aprofundada pelo governo Dilma, onde o governo incentivou o consumo via crédito/dívida, hoje recebemos a fatura dos investimentos mal dimensionados, baseados em uma demanda insustentável. Em todos os lugares onde ocorrem essas crises, vemos a mão estatal. Veja a Argentina e Venezuela, apenas para citar exemplos próximos.

    Se o país tiver seus mercados flexíveis, então a economia irá absorver os choques e se corrigir rapidamente, sem necessidade de intervenção estatal. Dois bons exemplos são a Nova Zelândia e a Austrália.

    No caso australiano, já são 25 anos sem crises, que começaram após as reformas que reduziram tarifas e burocracias. Veja no link http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/06/1787301-australia-atinge-marca-de-25-anos-de-crescimento-sem-recessao.shtml

    No caso Australiano, você pode ver com mais detalhes aqui http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2260

    Boa leitura, um abraço.

    • Pai eterno!!! Os colapsos econômicos globais de 1929 e 2008, foram decorrentes da interferência do estado na economia/ mercado???
      Mas, tenho que concordar com vc em relação a Argentina, foi o governo Macri iniciar o programa neoliberal, e o país foi levado à bancarrota.

  6. boa noite, não sei como, mas acabei chegando nesse “artigo” que o senhor diz acabar com o mito da exploração dos trabalhadores pelo capitalismo.
    Não entendi direito quando o “artigo” afirma que a Bélgica foi o segundo país a se industrializar. Em três anos estudando história econômica nunca li um livro sequer que mencione a industrialização belga como parâmetro comparável às industrializações inglesa, americana e alemã. enfim.
    admiro sua tentativa de derrubar o “mito da exploração” através de histórias sobre a mudança nos padrões de consumo dos trabalhadores. essa ótica poderia ser melhor explorada através da percepção de que padrões de consumo se realizam por conta da necessidade de escoamento da produção capitalista. se os padrões melhoraram não foi por conta da boa vontade dos empresários, e sim pelo próprio movimento do capitalismo.
    outro ponto, o mais importante de todos, é inegável que a condição de vida de toda a humanidade melhorou (tomando o continente africano como exceção, afinal lá pessoas ainda morrem de fome, e isso é normal no momento magnifico que as pessoas vivem hoje em dia, isso foi irônico). O capitalismo proporciona diversas possibilidades para os que aderem-no, ou melhor, para os que são aceitos por ele. A condição de vida dos trabalhadores melhorou inegavelmente. No entanto, a sociedade é partida em classes sociais, e o grande problema não está na repartição, e sim no momento de ruptura do sistema ( entenda por crise econômica).
    Nos momentos de crise o capitalismo se torna terrível, os empresários optam por demitir à diminuir margem de lucro, é aqui que está o problema. A condição de vida do trabalhador melhorou, mas a fragilidade econômica a qual ele está submetido continua ruim.
    não faço ideia de quem o senhor é de verdade, qual sua família e o que vocês fazem para ganhar dinheiro. Mas, ao menor sinal de crise, até mesmo o melhor engenheiro da empresa é colocado na rua pelo capitalismo.

    • Em nenhum momento o artigo defendeu os capitalistas em si( porque afinal, todos sabemos que em primeira instancia o homem pensa em si proprio, mas como mises ja dizia, para o capitalista alcançar seus objetivos era necessario elevar os padroes daqueles que produzem para que os mesmos possam consumir, e consequentemente lhes gerar lucro). E quanto a segunda crítica, cara recomendo ler a teoria dos ciclos economicos(que se não me engano hayek ganhou o nobel com ela) resumindo um pouco do que vi, ela deixa claro que o principal autor da crise é o estado, que não obedece as leis de mercado, mas por outro lado o controla, todas as crises que tivemos até agora tiveram a mão do estado em si, e aquelas onde ele fez menos intervenções para tentar “resolver” se ajustaram mais rapidamente no sistema livre, e de fato ninguem gosta de ver um trabalhador(aquele que depende necessariamente dos frutos de seu trabalho empregados no meio de produção de outrem) perder seu emprego, mas em momentos de crise infelizmente é assim, não é o capitalismo que faz isso, capitalismo é a troca livre, simplesmente, não é nenhum ser com tomada de decisões, por outro lado algo que ferra com quem trabalha é o estado, que ao impor regulações em contratos que deveriam ser livres(entre trabalhador e empregado) o valor adicional dessa regulação, sempre vai cair na parte mais fraca, ou no salario de quem trabalha ou no preço final do serviço-produto

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