A ideologia socialista em que se baseia o PT é cada vez mais rejeitada no mundo

O Brasil vai mal. O mundo vai relativamente bem. Poderia estar melhor, mas note que, à exceção de Venezuela e Brasil, o discurso “nós x eles” em bases econômicas não tem sido a tônica dos debates políticos. A pregação de Thomas Piketty, que é basicamente “vamos saquear os ricos e todos nossos problemas estarão resolvidos”, não encontrou novos discípulos. Há velhos socialistas na Europa, seguindo mais Bauman do que Piketty, numa narrativa um tanto confusa contra “o mercado”, esse demônio, mas mesmo na Grécia a chegada ao poder lhes deu um banho de realidade purgatório.

Na Ásia, na Oceania e na África, todos querem prosperar. Os fatores limitadores, se focarmos o diagnóstico país a país, têm sido por um lado a corrupção – que elege privilegiados ou mesmo mantém velhas estruturas comerciais estatais como no exemplo emblemático da Argélia – ou, fenômeno mais geral, a falta de garantias à propriedade privada.

Na América Latina, os presidentes de Nicarágua, Equador e Bolívia (Ortega, Correa e Evo, respectivamente) falam abertamente em socialismo, mas na prática agem como velhos coronéis patrimonialistas, aprofundando, vejam só, a concentração de renda, fruto dos privilégios distribuídos aos plutocratas favoritos. Bachelet tentou uma guinada à esquerda no Chile, mas foi travada pelo parlamento, além de se envolver em escândalos de corrupção. No restante do “continente” (conceito cultural), a busca da prosperidade pauta a política e as decisões econômicas. O México abre o mercado de petróleo; o Peru se associa ao grande acordo Transpacífico. As oposições de esquerda nesses países começam a se espelhar em seus pares mais modernos da Europa e focam no reformismo distributivista, evitando menções a confiscos, a nacionalizações forçadas e à revolução violenta.

Nos Estados Unidos, o movimento contra “o 1%” ganhou personificação em Sanders, que não foi capaz de reunir sequer a metade dos eleitores do Partido Democrata. O maior embate político se dá, por um lado, em disputas sobre moralidade pessoal (homossexualidade, drogas, feminismo) e por outro em critérios de eleição para transferências diretas de renda aos necessitados, o que, depois do fiasco do Obamacare, perdeu um pouco o apelo. Se Obama se posiciona à esquerda nesses pontos e seu governo segue pesando a mão em regulações, no comércio exterior tem militado pela ampliação do livre comércio internacional.

Muitos governos soberanos, especialmente na Ásia Central e na África, têm falhado na atração de investimentos internacionais, objetivo declarado, por falta de confiabilidade. Um acordo assinado hoje pode não valer amanhã. O caso emblemático da disputa por Simandou, na Guiné, entre Vale, Rio Tinto e um israelense especialista em relacionamentos com ditadores temperamentais dá uma boa medida de quanto a bagunça institucional pode travar o desenvolvimento econômico das nações muito pobres.

A propósito, o caso da Somália, que já foi vista como laboratório anarco-capitalista por permanecer por duas décadas sem governo formal efetivo, deve merecer maiores estudos. De fato, os somalis se viram beneficiados pelas tarifas de comunicação mais baixas do continente, antenas de telefonia instaladas com regulamentação e impostos zero; hotéis com segurança de oásis, mantidos por milícias privadas. Nem por isso, prosperou, talvez pela aparição de grupos islâmicos muito radicais e antiocidentais, talvez porque os vizinhos Quênia e Etiópia estejam empenhados em restabelecer por lá um governo convencional na lei e na marra.

De modo geral, a ausência de proteção à propriedade privada e a corrupção marcam os países de baixa renda. Mas também é notável que esses países já se deram conta dessas deficiências e se esforçam na direção de combatê-las. A adesão a acordos comerciais amplos, que impõem a adoção de princípios básicos de governança, tem rendido alguns frutos especialmente no sul e sudeste da Ásia e na África. São, por sinal, as regiões que registram o mais forte crescimento econômico nos últimos anos.

No Brasil, é atávica a aversão a olhar para o resto do mundo. É como se não existisse. Nossa intelligentsia faz de conta que conhece a França porque faz de conta que assiste a filmes franceses e faz de conta que leu os franceses ícones de esquerda de tempos passados. Para eles, a belle époque não terminou. O povão já teve o hábito de ouvir versões do country americano na voz de nossos queridos intérpretes sertanejos, mas até isso já passou. Hoje, tudo é de raiz. Simonsen, se vivo, contemplaria com desgosto o triunfo cultural e político da jabuticaba entre nós.

Nossa postura autodepreciativa (que inventariei no livro História do Brasil Vira-lata) é culturalmente voltada ao elogio da cultura estrangeira. Poderia até ser um bom conselho (os coreanos que o digam), não estivéssemos olhando apenas para a Europa do século XIX e ignorando completamente o resto do mundo atual.

Assim, em nossas escolas básicas se ensina que libertação é o mesmo que pilhagem, que quem produz é malvado, invasor e lacaio do capitalismo internacional. E nossas universidades não produzem quase nada de ciência e praticamente não conversam com suas congêneres do resto do mundo, mas possuem curiosidades fósseis como a UJS que dominam a representação estudantil, enquanto opções ainda mais radicais da lógica da pilhagem governam os sindicatos de professores.

A lógica petista, do MST, do MTST et caterva, até faz sucesso no exterior, merecendo o aplauso de velhos saudosistas da utopia, gente que vai morrer com Adorno enfiado no cérebro, impedindo a comunicação entre os neurônios. Também ganha o apoio interesseiro de quem não quer o Brasil, com suas potencialidades, como mais um competidor na arena internacional, em que a arbitragem de custo de mão-de-obra é uma questão sensível. Atenuá-la é a plataforma econômica da Frente Nacional da França, entre outras entidades políticas nacionalistas ainda fortes em seus países. Para essa gente, quanto mais o Brasil permanecer um paquiderme pouco produtivo, embalado pela burrice, melhor. A lógica deles exclui a cooperação voluntária ao imaginar que a riqueza de um país é gerada às custas de outro. Nossos nacionalistas sempre pensaram assim, conhecemos bem esse raciocínio dualista estúpido.

O resto do mundo tem diagnosticado seus problemas e tentado avançar em busca da prosperidade. Mesmo partidos formalmente socialistas, como o PS português, reconhecem a equação mais mercado = mais prosperidade. Se divergências políticas há, estão, como nos Estados Unidos, centradas em distributivismo forçado estatal e questões comportamentais. Este último ponto até está presente no Brasil, mas o debate aqui é extremamente pobre em argumentos e radicalizado pelas turmas do cuspe e do velho coturno positivista.

Quem olha para o resto do mundo hoje, globalmente ou país a país, até consegue ver alguma lógica petista em discursos de tiranos populistas de quinta categoria, como Rafael Correa, mas na prática o delírio extremo de um Nicolás Maduro consegue destruir a economia, os sonhos e as esperanças de um país inteiro.

Parecemos seguir a lógica de Eduardo Viveiros de Castro, para quem bom mesmo é não ter conforto nenhum, ficar pelado na selva, à mercê da tirania da natureza e dos mosquitos, virar um tipo de índio idealizado, que nunca existiu senão na imaginação dos europeus de antigamente, fascinados com o mito do bom selvagem. Ele se diz contra o PT por achar os petistas pouco radicais e terem a mania de, como ele, morar em apartamentos confortáveis e em bairros de classe alta de nossas melhores cidades.

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Aurélio Schommer
Aurélio Schommer é historiador, membro titular do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e autor do livro “O Evangelho Segundo a Filosofia”.

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