O estado matou a liberdade dos açougues em prol dos empresários corporativistas

Há dez anos havia uma predominância muito maior de açougues de bairro. Eram comércios na maioria das vezes confiáveis e a procedência das carnes normalmente não era tão duvidosa quanto a vendida no supermercado.

Geralmente os donos desses açougues eram pais de família que manipulavam a carne com certo rigor, contratavam gente da vizinhança pra dar aquela força no comércio, faziam o bom e velho fiado pra quem não podia pagar na hora, enfim, era um tempo onde havia maior proximidade entre os produtos de consumo e o consumidor.

Mas eis que apareceu o governo e suas “bondades”. E aí o açougueiro foi para o abismo com uma série de taxações, regulações, decretos, portarias, leis inúteis, legislações pesadas e tudo o mais necessário para acabar com um negócio promissor e confiável sob a desculpa de proteger os clientes daquele “malvadão” que – absurdo! – quer trabalhar e lucrar com o comércio de carnes.

E são tantas regras “protecionistas” que, sabendo da impossibilidade dos donos em cumpri-las de forma plena, os fiscais do governo se aproveitam da situação para caçar “irregularidades” como “a cor da parede”, pedindo aquele salário mínimo para assinar o alvará de funcionamento.

Enquanto isso, o estado isentou as grandes empresas de impostos e multas sempre que possível, bem como das regras sanitárias que o açougueiro da esquina tem que cumprir. Enquanto o dono do açougue do bairro era impedido de obter uma mísera linha de crédito para investir em seu negócio, o governo fornecia uma gorda verba para as grandes empresas por meio do BNDES.

E veio o período maquiavélico de “aos amigos os favores, aos inimigos a lei”, onde não há nada que impeça as grandes empresas. As dívidas caíam de 1 bilhão para 320 milhões, a “fiscalização” sanitária se tornou aliada e o Ministério da Agricultura passou a conceder seus selos livremente para os amigos do governo. Claro que isso teve um custo, pago com aquela verba pra campanha eleitoral para “resolver” tudo.

E o resultado não poderia ser diferente: consumimos carne podre, algumas delas até com papelão dentro. Contaminamos nossos pais, irmãos, filhos, parentes, amigos… nos baseando na confiança em um selo estatal e no sorriso técnico do Tony Ramos afirmando que “carne confiável tem nome!”.

O corporativismo, ou seja, a aliança entre estado e grandes empresários, nos trouxe resultados deploráveis. Mas o malvado continua sendo o seu José da esquina, aquele que queria vender suas carnes e terminou fechando por excesso de burocracia estatal. Enquanto isso, os corporativistas da JBS, BRF e companhia cairão no esquecimento em breve.

O corporativismo brasileiro é um desastre sem fim.

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Fernando de Castro
Bacharelando em jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

31 COMMENTS

  1. Como comentei em meu perfil pessoal do facebook:

    Já notaram que basicamente todo problema relacionado ao consumo em geral reflete sempre em uma pessoa? E essa é a pessoa do estado? Que, por consequência de sua atuação monopolística, leva consigo terceiros, como empresas ou pessoa físicas, à ruína?
    Note que o problema sempre que analisamos rapidamente é apenas a pessoa física ou jurídica privada, mas quando abrimos mais detalhes a figura estatal se faz presente mais do que imaginávamos. Quanto tempo mais até pararmos de achar que a presença do estado é necessária e único meio de sobreviver? Espero que não muito…

    • Cara, “note”, como tu dizes, que sempre o problema se origina em “pessoas”, não na instituição estatal.
      Note que o capital não vai deixar de existir. A galera mais ‘liberalizante’ (e eu não faço uma crítica ti, estou comentando, apenas) parece incorrer no mesmo erro que criticam sobre o socialismo.
      Quando falam dessa questão de que não se precisa do Estado, esquecem de ‘notar’ que já o Smith, o Mills e o Bentham se davam conta de que a economia de mercado é permeada por desigualdades que são anteriores a ele próprio.
      Se não houver um Estado que trate de impulsionar a diminuição da desigualdades (como evitar o monopólio, oligopólio e aí por diante), nunca vai se concretizar o funcionamento bonitinho da economia como a galera acredita.
      Se fala muito em que o Estado priva a livre iniciativa, que é por causa dele que o empreendedorismo no Brasil é tão minguado, que esse corporativismo é culpa do Estado.
      O que ninguém faz um esforço para ‘notar’ é sobre o estudo da história política e econômica de cada país. É através dela que a gente acaba esclarecendo as diferenças de desenvolvimento e iniciativa em cada um deles e compreendendo, ao menos em parte, a corrupção institucionalizada.
      Enquanto a gente achar que o simples problema é o Estado, vamos seguir no mesmo patamar econômico, correndo atrás dos bonitinhos do “norte” global, vendendo commodities pra eles e, de vez em quando, conseguindo um sobressaltozinho aqui ou ali.

      • “houver um Estado que trate de impulsionar a diminuição da desigualdades (como evitar o monopólio, oligopólio e aí por diante)” É o estado que mais cria desigualdades, monopólios, oligopólios e cartéis.
        “que é por causa dele que o empreendedorismo no Brasil é tão minguado, que esse corporativismo é culpa do Estado” Sim, e é por causa dele mesmo.
        “Enquanto a gente achar que o simples problema é o Estado” Não é simples, é um enorme monstro leviatã. E sim, é o principal problema.

        • Concordo plenamente, Marcelo, o Estado é o principal problema! O Estado é incompetente, reflexo direto do nível educacional e cultural do Brasil. O Estado é a maior fonte de corrupção do país!
          O Estado não mata apenas a liberdade dos açougues em prol dos grandes monopólios/oligopólios, o Estado mata todos os pequenos empresários de todos os segmentos da economia, em favor dos grandes, é geral.
          O Brasil não é para os pequenos, é para os (poucos) grandes! Triste realidade, mas vamos em frente, trabalhando, prestigiando o pequeno e participando para mudar!

        • Não concordo.
          Se o estado fosse capaz, exerceria concorrência leal no mercado cumprindo também as leis naturais do mercado.
          Se não é capaz de competir com bons preços e produtos, que assuma sua incompetência e deixe o verdadeiro espetáculo do crescimento acontecer como em todas as economias liberais.
          Não sei porque ficamos repetindo os mesmos erros do governo (regulamentador fiscal corrupto da natureza perfeita) e discutindo o que já foi mais do que comprovado.

    • Não quero falar alto mas, o Estado é composto por? políticos (minoria) e servidores públicos (maioria) que pra mim é tudo a mesma coisa em questão moral, pois defendem essa merda toda.

  2. Cara, concordo, plenamente, com o que tu disseste sobre a ação controversa do Estado, o qual acaba talando a sobrevivência de pequenos comerciantes e produtores frente aos ‘grandalhões’. Entretanto, essa crítica tão forte que se faz ao Estado me parece um pouco rasa. Na minha opinião, são os agentes estatais políticos, tanto os eletivos quanto os indicados por eles (cargos de confiança), os grandes detratores, e não o Estado como instituição. A associação de interesses corporativos privados a representantes políticos acaba por dar nisso.
    Quem defende o liberalismo sem fazer essa análise – e aí eu ressalto, novamente, que é a minha opinião – parece não refletir acerca do fato de que caso as empresas operassem livremente, esses conluios iriam ocorrer entre elas. Já que necessitam perpassar o crivo do Estado, se “unem” a ele, por meio desses mesmos políticos interesseiros.
    O meu ponto é que, com Estado ou sem, o “grandalhão” acabaria suprimindo o pequeno comerciante ou produtor. Deixo claro, além disso, que não sou defensor pífio o Estado, somente entendo que se deva ser pragmático nas críticas.
    Enquanto não mudarmos nossos próprios hábitos de consumo, nos preocupando, por exemplo, em comprar desses “pequenos” que ainda sobrevivem, só continuaremos fortalecendo os “grandalhões”.

    • Nunca, mas nunca mesmo.
      A competição é de mercado é uma lei natural primitiva e perfeita como a água.
      Não precisa nem ajudar nem interferir, apenas deixe os leves e pequenos e os grandes e pesados trabalharem e verá.
      Nem os desonestos sobrevivem em sociedade de livre mercado, muito menos nos dias de hoje onde as informações correm instantaneamente.
      Isto já é mais que comprovado.
      Deixem o povo viver.
      Que raiva tenho de ficar repetindo o que já foi mais que comprovado.
      O governo que sobreviva da extorsão de criminosos.

  3. O problema não é o livre mercado; ou o diabo que seja: o problema é o SER HUMANO, que está contaminado cultural e eticamente. Essa gente daria papelão para os próprios filhos ? Pois não o dariam nem para os próprios cachorros !!! Mas não se importam que os filhos dos outros comam papelão, bactérias e produtos cancerígenos. Precisamos é de uma reforma da Humanidade. Ou acham que pequenos comerciantes não cometeriam iniquidades se precisas forem para que tenham lucros mais altos ? O brasileiro está doente cultural, moral e eticamente, e não é de hoje.

    • Mas um comércio de bairro, mais próximo de nós como açougues, seria mais fácil para o consumidor perceber as desonestidades

    • Renato, concordo contigo. No entanto, e isso eu falo com base em experiências pessoas, a diferença de tu comprares no açougue ou no mercadinho do teu bairro é a de que tu crias um vínculo com a pessoa. Ou seja, com o passar do tempo, tu acabas te dando bem e a impessoalidade deixa de existir.
      Logicamente, isso não vai evitar sempre que o cara do mercadinho ou do açougue do bairro façam alguma mutreta. Porém, nem se compara com a impessoalidade de um cara dono de um frigorífico gigante, que não tem a mínima preocupação com a forma de produção da carne, seja no trato com o animal, seja no trato com o empregado, seja no que ele vai “injetar” nessa carne pra entregar pro consumidor.

    • Os pequenos comerciantes até poderiam cometer irregularidades, mas a burocracia estatal não foi feita para coibir isso e sim para inviabilizá-los. O mesmo processo iníquo foi maquiavelicamente feito para acabar com as farmácias de bairro. Tenho uma amiga farmacêutica, proprietária de uma pequena farmácia próximo a um bairro que eu morava, e que sofreu o ‘diabo’ para conseguir se adequar às absurdas, injustas e imorais exigências da degenerada ANVISA. E os fiscais sempre tentavam extorquir dinheiro para facilitar, mas ela sempre recusou, senão viraria uma taxa igual a cobrada pela máfia. Ela me contou cada absurdo. Então este texto é extremamente sensato e pertinente à realidade brasileira.

  4. Texto quase perfeito, só pecou por citar apenas o Tony Ramos. Pra ser totalmente verdade teria que citar o Roberto Carlos (vegetariano) e a Fátima Bernardes que também sorriram bastante com o cachê.

    • E o Jamie Oliver, contratado pela SADIA, mesmo com a má fama que tinha na Inglaterra, pois foi pego vendendo comida vencida e por falta de higiene, com estabelecimento interditado. Ele não é só garoto propaganda sem poderes de fiscalizar, ele é parte da produção tendo até linha de produtos com a grife dele…

  5. Caros, acredito também que nossa sociedade está falida. Neste momento, mais ou menos regras (maior ou menor intervenção do estado) não vão garantir igualdade, pois as pessoas má intencionadas estão por todos os lados (privado ou estado).

  6. Pode ir em qualquer açougue de cidade pequena, e peça um contra filet, se não tiver uma peça pra corte, eles abrem uma embalagem da Friboi na sua frente. Ou seja, a coisa ficou tão feia, que os pequenos tem poucas opções. Por exemplo ele não pode comprar um corte no matadouro, por conta das leis sanitárias, mas vender um corte friboi, embalado e com selo do SIF, pode.

  7. Há quem ache que o pecado foi o excesso de estado, e há quem ache que foi falta de estado, afinal a investigação da Operação Carne Fraca começou quando um servidor foi “punido”com folga de trabalho excessivo que tinha por não entrar no esquema e começou a bater informações e denunciou à PF. Acredito que o problema é os dois excesso de um lado e falta de outro, o Estado tem que garantir a liberdade de mercado para evitar esses monopólios, mas não se enganem que sem Estado garantindo o livre comércio e fiscalizando, estaríamos comendo coisa muito pior que Cabeça de Porco e Papelão.

    • O estado não garante “a liberdade de mercado para evitar esses monopólios”, é o estado que atua contra a liberdade do mercado gerando monopólios.
      Livre comércio, como diz o próprio nome, é livre. Sem intervenção do estado.

      • Há exceções, como o mercado da música, que é relativamente “livre”, mas é um verdadeiro cartel, em que só ascende quem paga ou adere ao esquema das grandes produtoras e gravadoras.

        • Quem criou o monopólio do ECAD? Quem decide quem pode ter uma rádio e televisão ou não?

  8. Antigamente vc ligava para um prestador, e ele melhorava o serviço quando vc o ameaçava de troca-lo por um concorrente. Ontem ao ligar para NET, logo de cara o atendente já me ofereceu o serviço da “concorrente” CLARO (que tem os MESMOS preços e serviços da NET), Deixando claro (sem trocadilho) que eu não tinha pra onde correr.

  9. Ótimo texto Fernando. A culpa realmente é desse estado calamitoso. Todos os dias há uma novidade e dificilmente haverá tempo para trabalharem honestamente.

  10. Perfeito. Justamente o que pensei quando estourou o escândalo.

    E com o leite é a mesma coisa – o leite atual não tem nata, é pura água suja.

    A vida inteira tomei leite tirado na hora e nunca morri mas agora também PROIBIRAM.

    Por isso que tem tanta gente com câncer hoje em dia.

    Meus bisavós morreram com mais de 90 anos, eram super saudáveis e não comiam o monte de química que a gente come.

    Pior que morrer de câncer causado por essas empresas é ouvir as FRASES FEITAS marteladas pelas propagandas mentirosas delas: “fitosanitários” = AGROTÓXICOS DISFARÇADOS, “alimentando pessoas E sonhos” = ENVENENANDO TODO MUNDO, fora as vazias “integração das pessoas”, “novo momento”, “vivência”, “diversidade”, “sustentáveis”…

  11. Vocês da cidade não sabem a realidade do colono. Para um colono vender um porco para a BR Foods o mesmo praticamente trabalha no “vermelho”, o porco inteiro é vendido a uns R$15,00, sendo que isso é mais barato que o pernil! O mesmo fato acontece com o frango. Eles vão colocar a culpa nos agricultores falando alguma coisa absurda do tipo que estão criando “animais zumbi” e o por isso da carne podre e com certeza a fiscalização vai aumentar mais para eles enquanto essas empresas vão continuar na mesma. Num estado que defende o MST mais do que o agricultor nunca se pode esperar coisa boa. Só quero ver o dia que os agricultores “chutarem o pau da barraca” e nos deixar ser carne nenhuma, daí com certeza o estado irá dizer que eles “são vilões de tudo” assim como fizeram com os caminhoneiros.

  12. Muito bom texto!!
    Isto foi oque postei em meu perfil do Facebook no dia 17, assim que li a notícia e que é a realidade que vivenciamos aqui em minha região:

    “Enquanto isto os colonos não podem mais carnear e vender a carne diretamente aos mercados e consumidores. Se venderem vigilância sanitária e outros órgãos governamentais ferram com suas vidas.

    Mas pode ficar tranquilo, estas queridas corporações criadas e detentoras de oligopólios graças a ajuda dos governos são mais confiáveis.

    Cade o Tony Ramos e a Fátima Bernardes nestas horas? hahahha”

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