Por que a Odebrecht é uma empresa anticapitalista fruto da intervenção estatal na economia

Muitos estão dizendo que os esquemas de corrupção entre o governo e a Odebrecht são um retrato do capitalismo. Quem diz isso não sabe o que é capitalismo. Ingênua ou cretinamente, relaciona capitalismo apenas à busca do lucro.

Capitalismo significa ambiente de trocas espontâneas entre pessoas e empresas, sem interferência do governo. Capitalismo = livre mercado. Uma pessoa ou empresa diz o preço do seu trabalho e outras pessoas e empresas aceitam ou não esse preço. Simples assim.

Capitalismo e programas econômicos do governo não se entrelaçam.

Em um ambiente de livre mercado, o governo seria como o juiz de futebol que, apesar de estar em campo e atento às jogadas, pouco é percebido pelos jogadores e pelo público, pois intercede raramente. Ele apita, interrompe a jogada fora das regras e pune. O resultado dessa “invisibilidade” do juiz é que os jogadores ganham mais liberdade para se movimentar, para criar jogadas, para fazer gols.

No socialismo, o juiz se coloca sempre ENTRE os jogadores, correndo junto deles para prevenir irregularidades e violência. Qualquer pessoa que entende minimamente de futebol, visualiza que dessa forma o juiz acabaria interferindo nas jogadas, bloqueando a movimentação dos atletas, muitas vezes esbarrando neles, amarrando o jogo.

Ou seja: quanto mais o governo tenta prevenir fraudes e abusos econômicos, mais ele limita o desenvolvimento da própria economia.

Outro ponto que deve ser compreendido é que o estado é, em conceito e prática, uma instituição socialista. Todos os governos são socialistas. Uns mais, outros menos.

Governo remete a controle. Controle remete a planejamento centralizado. Planejamento remete a interferência nas relações espontâneas das pessoas. Não existe nenhum governo que não se coloque como “promotor da igualdade social” por meio de programas.

O que distingue os governos e determina o desenvolvimento de um país é justamente o nível dessa interferência. Os países que ocupam o topo da lista de desenvolvimento social e econômico também ocupam o topo da lista dos país com maior liberdade econômica; e, não por coincidência, também são os que registram menos casos de corrupção.

Lembramos também que o conceito de livre mercado – capitalismo – rejeita qualquer ajuda do governo às empresas, rejeita todo tipo de subsídios, rejeita todo tipo de concessão de crédito, rejeita qualquer coisa que favoreça alguma empresa no mercado.

O socialismo, por sua vez, baseia-se na ideia de que o estado deve controlar a economia a fim de impedir as “falhas de mercado”, redistribuir renda e promover a igualdade social.

Esse controle se dá por meio de intervenções e programas econômicos − o governo escolhendo quais setores e empresas devem prosperar graças a injeção de dinheiro confiscado da população.

Considerando tudo isso, vejamos o caso da Odebrecht.

A empreiteira não é fruto do capitalismo, mas de políticas econômicas que, desde o regime militar, concederam a ela incentivos e créditos especiais. Ou seja: a Odebrecht é fruto de uma mentalidade de esquerda, anticapitalista.

O programa econômico do regime militar em nada se difere ao programa defendido ferozmente pelos atuais socialistas. O programa econômico imposto pelo PT foi tão nacionalista e intervencionista quanto o dos militares. Ambos privilegiaram grandes empresas e setores com diversos tipos de incentivos. Ambos promoveram um plano “desenvolvimentista” baseado em grandes obras de infraestrutura marcadas por superfaturamentos e corrupção. Para sustentar isso, ambos endividaram o país gerando o mesmo resultado: ineficiência, recessão e desemprego.

A Odebrecht é fruto disso. A Odebrecht é filha do estado.

Num ambiente de livre mercado, uma empresa só cresce se realmente for eficiente porque não terá um governo lhe ajudando, lhe emprestando dinheiro sob condições especiais e lhe concedendo subsídios e isenções.

Marcelo Odebrecht confessou, em um de seus depoimentos, que a Braskem só não foi à falência porque o governo a salvou. Num ambiente capitalista, ela simplesmente teria falido e seu espaço no mercado teria sido ocupado por outra empresa. Simples assim. Mas, como vivemos num país impregnado de socialismo, a Braskem recebeu todo tipo de ajuda do governo – e, em retribuição, financiou as campanhas eleitorais de seus “salvadores”.

O que Lula fez para salvar a Braskem? Simplesmente mandou a Petrobras associar-se a ela. Foi assim, quase como mágica, que a empresa se manteve no mercado. Uma “mágica” financiada pela população brasileira.

Emílio Odebrecht, pai de Marcelo e patrono da empresa, confessou em depoimento que sustentava Lula desde os tempos em que ele era apenas um sindicalista. Essa informação, por si só, destrói o argumento da esquerda de que as grandes empresas sabotam os projetos socialistas em favor de políticas liberais.

Pergunto: por qual razão um grande empresário apoiaria um líder ou movimento que diz que o governo não deve conceder qualquer privilégio aos empresários? Não existe razão; e, por isso, eles não apoiam.

A grandes empresas, como Emílio Odebrecht confessou, gostam e querem governos intervencionistas para que consigam benefícios. Tudo o que elas não querem é um governo realmente liberal, que acabe com o crédito fácil, com os subsídios, com as isenções e que abra o mercado aos concorrentes.

O caso da Odebrecht é apenas um entre dezenas que representam o cenário atual da economia brasileira, com as empresas que mais receberam dinheiro do governo quebradas ou enroladas na Lava Jato. Isso foi previsto pelos liberais. Toda a literatura liberal alerta para os problemas que o intervencionismo gera, principalmente para os mais pobres.

Alguém pode provocar: “ah, então no capitalismo todos os empresários são bonzinhos, ninguém frauda, ninguém corrompe”.

Respondo: não há uma única linha na literatura liberal que diz isso. O que dizemos é que, num ambiente de livre mercado, o estado não participa do “jogo” do mercado e nem é um sócio oculto das grandes empresas, o que reduz e muito as oportunidades de corrupção. Isso não é apenas uma tese. Isso é um fato comprovado nos países mais desenvolvidos.

A burocracia, as sobretaxas e as regulações privilegiam as grandes empresas, restringindo ou mesmo impedindo o crescimento de concorrentes.

Os programas econômicos são formas legais que os políticos criaram para injetar dinheiro em grandes empresas, para receber delas apoio financeiro.

O excesso de funcionários públicos também é um traço característico do socialismo e da desgraça de qualquer país, já que faz com que os cidadãos produtivos trabalhem para sustentar aqueles que não produzem.

Os programas sociais são o engodo. Enquanto o governo destina montanhas de dinheiro às grandes empresas, distribui esmolas aos mais pobres.

É preciso entender que nenhuma empresa, por maior que seja, consegue roubar a sociedade sem a ajuda do estado.

A Odebrecht não roubou o governo, não roubou a Petrobras. Ela roubou milhões de brasileiros, uma massa de pessoas comuns que trabalha quase metade do ano para pagar impostos ao governo. Mas a Odebrecht só conseguiu fazer isso por causa de pessoas como Lula e Dilma; e essas pessoas só tiveram poder para beneficiar a Odebrecht porque no Brasil impera a crença de que o governo deve “impulsionar e economia”.

Toda “política econômica” necessita de uma imensa rede de ministérios, secretarias, agências e conselhos para ser efetivada. Cada nó dessa rede é controlado por um grupo político. Cada grupo político têm seus interesses particulares e a necessidade de se manter o poder. Motivados por isso, criam dificuldades burocráticas e fiscais para, logo em seguida, vender as facilidades que apenas as grandes empresas podem pagar.

Portanto, toda “política econômica” governamental é, por si só, um vetor de corrupção.

Os socialistas e “desenvolvimentistas” argumentam que, ao ajudar as grandes empresas, ajuda-se toda a cadeia produtiva, preservando e criando empregos, aumentando a arrecadação, cuja receita é convertida em programas sociais. Os fatos provam o contrário.

Além de motivar a corrupção, tais “ajudas” alimentam a ineficiência, gerando prejuízos e perda de mercado de setores inteiros da economia, levando as empresas à falência ou a receber mais e mais dinheiro do governo para evitar que ela aconteça, drenando a riqueza do país e diminuindo a arrecadação de impostos, reduzindo os recursos para os programas sociais governamentais, serviços essenciais e pagamento de salários. Foi isso que o PT fez no Brasil.

Programas econômicos são sustentados pelos confisco de parte da renda das pessoas comuns para distribuir o montante entre as grandes empresas.

Política monetárias significam que o governo imponha uma taxa de juros à população e ofereça outra menor à essas mesmas empresas.

O resultado disso tudo é que as empresas comuns lucram menos, ficam com menores condições de contratar e ampliar seus negócios, o que enfraquece o mercado e aumenta o poder do governo, que se torna o maior concentrador de riqueza, destinando a maior parte para manter seus financiadores eleitorais e a si mesmo. Os liberais são contra tudo isso.

O que os liberais defendem é que as pessoas tenham plena liberdade para comercializar seu tempo, seu trabalho, suas ideias e seus talentos. Se o estado não tivesse o poder de interferir nas relações mercado, as empresas teriam que crescer sozinhas. Fenômenos como a Odebrecht não existiriam.

No ambiente de livre mercado também haveriam empresários que agiriam de má fé, mas eles não teriam condições, por maiores que fossem suas empresas, de redigir leis, medidas provisórias e portarias em seu benefício. As consequências da má fé de um empresário sempre seriam muito limitadas. Ele poderia prejudicar seus clientes, mas não toda a sociedade.

Exigir que o estado não se intrometa nas relações econômicas não é um mero fetiche liberal. É uma necessidade. É uma urgência. Vivemos num continente de cultura patrimonialista, onde a grande maioria das pessoas tende – caso tenha oportunidade − a se apropriar do estado. Reduzir o estado é minimizar essa oportunidade. É minimizar o ambiente para a corrupção. Reduzir o estado é facilitar e baratear a vida das pessoas para que elas possam trabalhar melhor, lucrar mais, enriquecer mais e ter mais condições de ajudar, voluntariamente, outras pessoas.

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João César de Melo
Artista plástico formado em arquitetura, acredita no libertarianismo como horizonte e no liberalismo como processo, ateu que defende com segurança a cultura judaico-cristã, lê e escreve sobre filosofia política e econômica.

3 COMMENTS

  1. Gostaria de me inteirar mais nesse assunto e pedir nesse espaço aqui algumas recomendações de livros da literatura liberal

    • Olá! Recomendamos: Seis Lições (Mises), Economia Numa Única Lição (Hazlitt) e Livre para Escolher (Friedman).

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