Por que os piores políticos são eleitos

A lista de políticos com foro privilegiado que tiveram a abertura de inquérito autorizada por Edson Fachin evidenciou mais uma vez o nível dos personagens e do ambiente político nacional. Mas, afinal, por que isso ainda causa espanto e revolta? Porque a grande maioria das pessoas acredita que a política poderia ser outra coisa.

A crença de que devemos confiar ao estado a promoção do bem-estar social sustenta-se na idealização do “bom político”, do representante popular modelo de honestidade e de competência, cuja sabedoria e espiritualidade farão jus à confiança que a sociedade lhe conceder. Para ajudá-lo na construção da justiça social, a maior parte da sociedade idealiza um partido político diferente dos outros, cujos membros seriam tão honestos, tão competentes, tão sábios e espiritualizados quanto o seu líder – como o PT já foi visto um dia. A ingenuidade está em acreditar que existem seres humanos que dariam função social ao poder em vez de utilizá-lo em benefício próprio; e essas criaturas abnegadas seriam detectadas a partir dos discursos lindos e bonitinhos que fazem.

Friedrich Hayek, em seu livro O Caminho da Servidão, explica não apenas a impossibilidade de realização desse desejo, mas também a razão pela qual a política é preenchida sempre pelas pessoas menos aptas à administração do estado e do poder. Para tanto, Hayek identifica três condicionantes que se correlacionam por meio do sistema político mais admirado da humanidade, a democracia.

Em primeiro lugar, ele nos lembra que quanto maior o nível intelectual de um ser humano, maiores serão suas divergências sobre a grande maioria dos assuntos, afinal, a instrução amplia a visão sobre o mundo e nós mesmos. Diante disso, enxergamos que, “se quisermos encontrar um alto grau de uniformidade e semelhanças de pontos de vista, teremos de descer às camadas em que os padrões morais e intelectuais são inferiores e prevaleçam os instintos mais primitivos e comuns”, escreve Hayek, o que significa que é o menor denominador comum que elege um representante do povo. Para se comprovar o fundamento desse fenômeno, podemos correlacioná-lo à atenção que determinadas pessoas e assuntos cativam.

Quanto mais superficiais forem as letras de um cantor, mais fãs ele cativará. Entre um quadro de Romero Brito e um de Willys de Castro, a grande maioria das pessoas optará pelo primeiro para decorar a sala. Entre uma entrevista com um jogador de futebol e outra com um cientista, certamente o povão preferirá ouvir o atleta. Um discurso sobre “justiça social” e “redistribuição de renda” certamente atrairá a atenção de muito mais pessoas do que uma palestra sobre a curva de laffer ou sobre o princípio da escassez.

A segunda condicionante identificada por Hayek diz que o pretendente a líder terá necessariamente que conseguir o apoio dos “dóceis e dos simplórios, que não têm fortes convicções próprias, mas que estão prontos a aceitar um sistema de valores previamente elaborado, contanto que este lhes seja apregoado com bastante estrépito e insistência”.

Partindo do princípio de que boas ideias precisam de bons cérebros para processá-las, enxergamos a razão pelas quais as ideias mais insustentáveis são assimiladas pela maioria das pessoas com tanta facilidade − de serviços gratuitos a intervenções econômicas. Socialistas de bandeiras vermelhas e socialistas de gravatas azuis conquistam o poder com tanta facilidade porque suas ideias refletem as massas, o que torna mais difícil que alguém com ideias construtivas seja eleito.

As primeiras filas dos partidos políticos sempre serão ocupadas por aqueles cujas ideais vagas e imperfeitas influenciam com facilidade, aqueles que não têm dificuldades para despertar paixões e emoções nas massas e nos demais colegas.

Hayek finaliza esclarecendo sobre um comportamento comum à grande maioria dos seres humanos: a propensão a aceitar com muito mais facilidade programas negativos – “o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em situação melhor” – do que um plano positivo, por exemplo, a melhoria individual. Pregar a destruição da riqueza para eliminar a pobreza é muito mais assimilável do que defender que cada pessoa deve perseguir seus objetivos a partir de seus próprios talentos e esforços. A antítese “nós” e “eles”, o incentivo à desconfiança de um grupo em relação ao outro, a distinção de classe, de raça e de inclinação sexual são ingredientes essenciais da liderança dos demagogos sobre as pessoas mais simples. Não houve na história humana um líder que não tenha se erguido por meio da identificação de inimigos e da distinção dos “bons” e dos “maus”, dos “justos” e dos “injustos”, o que sempre lhes deu liberdade para pregar e agir em nome do “bem” e da “justiça” desenhados a partir de seus próprios valores, para suprir os próprios interesses. Hayek observou este fenômeno como o responsável pelo sentimento antissemita e anticapitalista na Alemanha nazista, o que é evidenciado nas publicações de autores como Werner Sombart, Johann Plenge, Paul Lensch e Oswald Spengler.

De fato, essa percepção é um tanto desmotivante, o que leva a crer que a redução do estado e de seu papel na vida das pessoas se dá a partir de algum “acidente político”. Se nos Estados Unidos foi um ator (Reagan) e no Reino Unido foi uma química (Thatcher) que colocaram certa ordem na casa, quem sabe surja por aqui alguém que preze apenas o resultado das ideias.

Se pudesse desenhar um perfil, desenharia um empresário bem-sucedido − ou seja, alguém que já tenha conquistado tudo o que um homem pode conquistar por meio do trabalho – e que por vaidade e nada além disso queira ser o responsável por administrar o estado como se administra uma empresa, sem se importar com a vida privada dos clientes, preocupando-se apenas em garantir a liberdade e a paz das pessoas.

Não estou remetendo a João Dória, até porque − devemos sempre nos lembrar disso −, ele compõe os quadros do PSDB, um partido social-democrata e um dos mais sujos do Brasil. Porém, seu perfil e a maioria das medidas que vem adotando mostram que, quando apresentadas numa linguagem clara e objetiva, “soluções de mercado” podem ser bem assimiladas pela população.

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João César de Melo
Artista plástico formado em arquitetura, acredita no libertarianismo como horizonte e no liberalismo como processo, ateu que defende com segurança a cultura judaico-cristã, lê e escreve sobre filosofia política e econômica.

6 COMMENTS

  1. Os psiquiatras definem os melhores políticos como sendo psicopatas frios capazes das piores ações sem um mínimo de constrangimento, isso porque são psicopatas, são incapazes de sentir culpa, egocêntricos, é a mente deles que trabalha de forma anormal, o sistema límbico é incapaz de produzir emoções como culpa, amor, empatia… é tudo superficial, verdadeiros atores que vestem um personagem engajado e preocupado com o interesse público, falam muito bem, isso é assim.

  2. Um ótimo artigo! Numa linguagem simples para que todos entendam a mensagem contida.
    Essa tática de falar o que a pessoa quer ouvir, infelizmente ainda impera no mundo. A frase “me engana que eu gosto” faz sentido para a maioria que preferem uma alegre mentira do que uma triste verdade.

  3. Muito bom o texto, porém no último parágrafo poderia ser acrescentado: João Dória se declarou um social democrata, um PSDbista de carteirinha. “O meu pai na política é o Alckmin”. Todas essas frases foram ditas por ele mesmo. Se caso, ele saísse do PSDB e mudasse esse conceito de social democrata que ele se intitula, poderia ser um bom candidato. Mas enquanto ele tiver esse pensamento, ele será apenas um bom gestor municipal. Na esfera federal, ele será “engolido” pela ideologia partidária (penso eu). Até porque, até hoje não vi nenhum social democrata “enxugar o estado”, enxugar a máquina pública e ter políticas menos estadistas.

  4. Eu faria alguns adendos: João Doria é o melhor que poderemos ter. Ponto. O fato de bajular movimentos sociais, como feministas, racialistas e lgbtistas, com medidas que geram conflito social são um ponto negativo. Mas, ao menos, ele não faz a derrama de dinheiro público gratuito nas mãos desses movimentos.
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    Ronald Reagan aumentou a dívida pública, muito disso, devido ao fato de que não arrecadava o suficiente para pagá-la. Mas seu discurso individualista era imbatível. Sua guerra as drogas mostrou-se um fiasco. Mas é preciso reconhecer: Ninguém, aquela altura, poderia ter tentado uma abordagem diferente.
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    Um individualista liberal, como Thatcher , jamais teremos. Não com esta imprensa que, nas palavras de Millôr Fernandes, é a verdadeira responsável pelo atraso do país.

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