Porque esquerda é esquerda, liberal é liberal e conserva é conserva

Muitos insistem na ideia de “conservadorismo liberal”, e para justificar, dizem bobagens sem precedentes que violam a lógica mais básica. Um dos argumentos mais comuns para justificar esse conceito é afirmar que alguém pode ser conservador em sua vida privada, mas ainda assim liberal no âmbito social.

Quando se questiona o que vem a ser um “conservador no âmbito privado”, naturalmente a resposta é que uma pessoa assim preserva seus valores em casa, sem interferir na vida alheia. Que bobagem! Preservar os nossos valores é um ato praticamente instintivo. Todos nós, em maior ou menor grau, defendemos aquilo que acreditamos ser correto segundo a nossa régua moral. Se isso fosse o bastante para determinar o que é ser um conservador, então praticamente todas as pessoas do mundo o seriam, incluindo Leonardo Sakamoto, David Friedman ou a Glória Maria. Este argumento é simplesmente estúpido, pois do ponto de vista liberal pouco importa o que você acredita e faz em sua vida privada. Pela ótica liberal, da sua casa para dentro você deve ter a liberdade de fazer o que quiser. Tanto faz se você for homossexual libertino com seis maridos ou se você for um homem casado há trinta anos com a mesma esposa. Nós não ligamos!

Conservadorismo é um pouco mais do que ser simplesmente um moralista puritano. Trata-se de uma doutrina. E é uma doutrina que, em parte, pode ter certas convergências com o liberalismo, mas em outras partes possui divergências. E estas divergências são em sua maioria essenciais. O liberalismo, por exemplo, é individualista por fundamento. O conservadorismo, queiram admitir ou não, é coletivista. Não é coletivista como o progressismo, obviamente. Mas, ainda assim, não existe conservadorismo sem o reconhecimento de que certos valores e tradições precisam ser mantidos para a sociedade, não apenas para o indivíduo. Conservadores em geral sentem que há uma necessidade indispensável de se manter valores morais para o grupo social, valores dos quais alguns entes desta sociedade podem discordar. O liberal, por outro lado, defende princípios éticos. A ética é universal. A moral é relativa. Os conservadores ocidentais não acreditam nos mesmos valores que os conservadores orientais, por exemplo. Isto porque as culturas são distintas. Já os liberais, por defenderem princípios éticos, podem pensar de maneira exatamente igual se compararmos um liberal da Indonésia com algum liberal nascido na Filadélfia.

Diz-se por aí, também, que é possível ser um liberal no campo econômico, mas ser conservador no campo político. Pois eu respondo aos que acreditam nisso de forma bastante enfática: ser conservador no campo político é exatamente o que define um conservador. Conservadorismo, assim como liberalismo, não são doutrinas econômicas. A economia livre é consequência de um arcabouço ideológico e filosófico. Livre mercado não é um princípio, é um objetivo a se alcançar. Para se alcançar este objetivo, que muitas vezes alguns conservadores têm em comum conosco, é necessário passar por processos políticos e sociais que o antecedem. Neste ponto, conservadores e liberais divergem.

Outra coisa importante a se esclarecer é que não há uma linha mágica separando liberdade econômica e liberdade civil. Os liberais de verdade, que realmente têm ideia do que fazem, sabem disso perfeitamente. E não sou eu que estou dizendo. Quem disse isso, muito antes de mim, foi o próprio Milton Friedman, foi Bastiat, foi Mises, etc. O conservadorismo pode resultar em liberdade, mas ele não tem compromisso com ela. O compromisso principal da doutrina conservadora é com relação às tradições e os costumes que são, por eles, considerados positivos e necessários para formar uma boa sociedade para o futuro. Diferente do que muitos pensam, conservadores de verdade não vivem no passado. O que eles têm é um apego ao conhecimento humano pautado na história, por isso são em sua maioria antirrevolucionários e são céticos quanto à política.

A conclusão, no fim das contas, é simples. Quero apenas dizer que liberais são liberais, conservadores são conservadores. Percebam que, neste artigo, nem os estou criticando por serem conservadores. Estou apenas evidenciando que são diferentes de nós, e julgo isso saudável tanto para nós quanto para eles. Talvez devêssemos parar com essa mania infanto-juvenil de querermos ser “amiguinhos” de todo mundo, sair de mãos dadas em prol de algum suposto objetivo em comum. Isso é tolice. É preciso, mais do que nunca, que se entenda em definitivo que as coisas são diferentes por uma razão. E está mais do que na hora pararmos de fingir que não há uma divisão entre uns e outros. Esta divisão existe e ela é necessária. Se for do interesse de ambas as partes o ataque contra a esquerda, que assim seja. Mas não precisamos nos fundir para fazer isso. Basta que cada um faça sua parte. Os conservadores atacam a esquerda como nós, mas não da mesma forma que nós. As razões pelas quais atacam são diferentes das razões pelas quais atacamos.

E àqueles que acreditam em “esquerda unida” e usam isso para defender uma “união das direitas”, peço que aguardem o manual que lançarei em PDF gratuitamente até o fim deste mês.

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11 COMENTÁRIOS

  1. Parece que todas as pessoas no Brasil querem misturar suas escolhas pessoais com sua posição política. Eu sou conservadora e “comunista”, mas minha posição política é liberal. Eu não me casaria com quatro homens, mas se uma mulher quiser fazer isso e eu for o governo, porque eu deveria impedi-la? Eu dividio tudo o que é meu, geralmente quando alguém que tem menos me pede algo, eu dou e pronto, nem pisco, mas, acho absurdo o governo querer mandar na propriedade privada, pior ainda: o governo ser maior do que a nação. Não misturem as coisas. Eu só não sou anarquista porque não acredito na bondade humana. A única pessoa boa que eu conheço e coloco a mão no fogo por ela, sou eu mesma!

  2. Será que o ILISP não consegue imaginar alguém que seja LIBERAL para a parte ECONÔMICA (à favor do Estado enxuto, do incentivo à livre iniciativa e da redução da carga tributária) e CONSERVADOR quanto aos COSTUMES (à favor da valorização da família tradicional, contra o aborto, contra a ideologia de gênero nas escolas, etc)?
    Desta forma, considero-me um liberal-conservador (ou um conservador-liberal) – e a maioria dos conservadores que conheço são assim…
    Qual o problema, turminha? Qual o mistério???

    • Não existe meia liberdade. É perfeitamente possível que você tenha valores conservadores, mas que não queira impor os mesmos aos demais por meio do estado. Se esse é o seu caso, você é um liberal. Do contrário, é um conservador.

  3. Sou um liberal-conservador…. rs…. deixe-me explicar.

    Concordo 100% com a ideologia de: o que você faz na sua casa, sem prejudicar terceiros, não me interessa.
    Pelo mesmo motivo, não gosto que o Estado me diga como eu devo educar os meus filhos dentro da minha casa. Me parece justo.

    Então você vê projetos pipocando pelo Brasil, querendo nos empurrar a ideologia de gênero, kits gay, e por aí vai.
    Se isso acontecer nas escolas, na minha visão, isso fere a educação que eu quero dar aos meus filhos.

    Eu ser conservador, no sentido de querer preservar os valores da família na minha casa, não impede de eu continuar a ser liberal: cada um faz o que quer. Mas não com os meus filhos.

  4. Texto perfeito.
    Só não concordo na parte: “Para se alcançar este objetivo, que muitas vezes alguns conservadores têm em comum conosco, é necessário passar por processos políticos e sociais que o antecedem. Neste ponto, conservadores e liberais divergem.”

    Não acredito que tendo como fim liberdade econômica seja necessária a passagem obrigatória por processos sociais(entende-se por processos sociais por exemplo á adoção de filhos para casais homossexuais). Entendo que, se conservadores e libertários tiverem como objetivo a liberdade econômica, essa será feita mesmo discordando em outros aspectos. Cito ainda, um deputado Marcel Van Hatem. Que ME PARECE, não tenho certeza, conservador, mas que busca liberdade econômica.

    • Mas não tem nada a ver a adoção por casais gays com livre mercado. Uma coisa independe completamente da outra.

      Processos sociais são coisas como privatização de estatais, redução de impostos, desburocratização, revogação de leis estúpidas, etc. Isso tem a ver com alcançar o livre mercado por meios práticos.

  5. Daniella, isso que dá tratar política como futebol.
    O Brasileiro comum não é guiado pelos seus ideais individuais para formar sua opinião política, mas sim escolhe entre uma gama de ideologias já prontas qual ele acha mais cool.

  6. Eu ainda vejo a união entre conservadores burkeanos e liberais de boa estirpe como importante e necessária nesse momento, para um que um dia a “estratégia das tesouras” seja entre conservadores e liberais.

  7. Brasileiro é realmente um bicho em cima do muro. Só aqui você vê:
    – conservador se chamando liberal (e dizendo em que um liberal tem que acreditar)
    – social democracia se chamando de direita;
    – espírita frequentando igreja católica (para continuar praticando o espiritismo);
    – ideologia de gênero prx fulanx decidir se vai ser meninx ou meninx;
    – feministas, gays e lésbicas defendendo radicais da Palestina e Estado Islâmico;
    – pessoas que são contra o aborto defendendo pena de Morte (quando não, a justiça com as próprias mãos);
    – pessoas que são contra a Pena de Morte defendendo o aborto.
    – Defensores da liberação do porte de armas contestando legalização do comercio de (algumas) drogas.

    Um dia a gente se decide…

    • Aborto: matar um ser vivo inocente.
      Pena de morte: matar um ser vivo não inocente.

      Não é nada incoerente defender pena de morte e ser contra o aborto. O contrário é que é incoerente, apoiar morte de bebezinhos e defender marginais.

      • Esses bebezinhos nascidos na pobreza que você quer impedir que sejam abortados serão todos bandidos!

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