“Real – O Plano por Trás da História”: o filme brasileiro que você deve assistir

Durante muitos anos, o folclore ligado ao cinema nacional parecia apontar para Macunaíma ou Antônio das Mortes como personagens simbólicos da cinematografia brasileira. Até que, em 2007, o surgimento de “Tropa de Elite” e o abraço do público ao Capitão Nascimento tiraram da crítica especializada a incumbência de “dar um rosto e um nome” que mais fielmente representassem a indústria, ultrapassando os limites das telas e invadindo a cultura em geral por meio de outras mídias, inevitáveis paródias, referências, etc.

Quando agora, dez anos depois, surge Emílio Orciollo Neto bradando “desenvolvimentistas do car…” em sua impressionante personificação do economista Gustavo Franco, o predomínio do Capitão Nascimento parece seriamente ameaçado. Talvez seja esta a maior das realizações possíveis para “Real – O Plano por Trás da História”, produção de Ricardo Fadel Rihan dirigida por Rodrigo Bittencourt (da comédia “Totalmente Inocentes”) que chega aos cinemas para contar a criação do célebre “Plano Real”, que derrotou a hiperinflação brasileira em meados da década de 1990, entre os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

É de se imaginar a imensa dificuldade em transformar num enredo interessante uma intrincada rede de raciocínios macroeconômicos e o desenrolar político de bastidores que possibilitaram, momentaneamente, a convivência entre duas moedas – a anterior, arruinada pela inflação, e uma intermediária (URV), que antecedeu ao real propriamente dito e que contava com a segurança do suporte em dólar. Mas é neste ponto que o filme atinge seu grande mérito: o roteiro – brilhante obra de Mikael de Albuquerque a partir do livro do jornalista Guilherme Fiúza, “3.000 Dias no Bunker” – consegue envolver o espectador em 90 minutos sem trégua e oferecer um protagonista (Gustavo Franco) com todas as características necessárias a uma personalidade lendária: coragem, obstinação, engenho e lances de nobreza alternando-se a outros de puro egoísmo, numa mistura que torna mais fácil o envolvimento com a trama mesmo para quem, como o ex-presidente Itamar Franco, não entende coisa nenhuma do plano econômico.

“Foram três anos de escrita e 19 tratamentos”, revelou Albuquerque, na coletiva de lançamento. Esse é o ponto alto do filme, que sofre, na contramão, com as falhas já habituais de uma cinematografia que encontra imensa dificuldade em equilibrar, num mesmo filme, comunicação com o público e invenção cinematográfica. A fixação – até compreensível – em construir canais seguros de comunicação com a audiência tem aproximado por décadas os filmes brasileiros de seu parente dramatúrgico mais bem sucedido (no caso, a telenovela), o que confere a eles características típicas da empobrecida narrativa da televisão. Faltam a composição dos quadros, a alternância entre momentos de preenchimento e vazio, a noção de ritmo, a hierarquia dos planos que tipificam a linguagem da tela grande. Tudo é muito concatenado, o puro diálogo conduz o filme fazendo com que a presença da câmera, invariavelmente, faça do espectador um observador ocasional do que se passa, de modo que, convertido numa peça de teatro, por exemplo, o resultado pudesse ser muito parecido (ou idêntico).

A despeito de tudo isso, compreendendo as intenções dos realizadores e considerando sempre que um filme é um todo íntegro de significado, o placar final lhe é favorável: “Real…” é divertido, ágil, tem montagem de elenco minuciosa (a ponto de oferecer uma caracterização assustadoramente fiel de José Serra, um personagem bastante secundário e, ressalte-se, detestável) e consegue atingir a importância de relato histórico que parece almejar.

Com irritação contida, o global Juliano Cazarré (interpretando o político petista que sintetiza personagens reais) reclama do boicote ao filme no festival de cinema pernambucano, lembrando que, tal qual o episódio com ”Boi Neon” (retirado pelo diretor da disputa à vaga pelo Oscar), uma reação política intempestiva acaba dificultando aos filmes vôos mais altos. Esta é a ponta do iceberg de toda a dimensão ideológica envolvida na produção de cinema no país, e acaba reafirmando outro mérito de “Real”: a coragem em seguir firmemente na contramão, talvez inspirado pelo seu personagem principal – no caso, Gustavo Franco, um apaixonado defensor do valor e da estabilidade da moeda contra as vicissitudes políticas.

Em 20 anos, se eventualmente despontar por aqui uma geração de jovens economistas que compreenda que nenhum país se desenvolve e nenhum povo enriquece desvalorizando por oportunismo ou heterodoxia econômica o dinheiro que está em sua própria carteira, uma boa parte da explicação talvez seja devida a este filme e ao seu personagem principal, que a um só tempo derruba a inflação, samba na cara dos petistas e conquista Paolla Oliveria (mesmo sendo visivelmente uns 10 centímetros menor que ela). Se este não é um herói (ou anti-herói, como parecem defender o diretor e o ator principal do filme) digno de ser viralizado, citado, lembrado e imitado, então o problema não está com esta produção, em particular, ou mesmo com a cinematografia nacional (ou com nossos economistas “desenvolvimentistas do car…”), mas com a alma do brasileiro e seu complexo aparentemente incurável de vira-lata.

Publicado originalmente em Nos Bastidores.

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