O que os cursos sobre o “golpe” revelam sobre as universidades estatais brasileiras

Depois de uma década aparentemente adormecida e em plena satisfação, parece que a comunidade acadêmica brasileira enfim despertou, relembrando-nos daquela velha intelectualidade ativista que caracterizou as décadas finais do século XX. Lembramo-nos bem que durante o governo do Partido dos Trabalhadores fazer qualquer crítica àqueles que estavam no poder era praticamente um sacrilégio e até o humor político que sempre fez chacota com qualquer governante foi saindo aos poucos de cena. Quem não se lembra do Casseta & Planeta?

A ditadura branca do politicamente correto fazia vista grossa aos escândalos de corrupção cada vez mais frequentes no governo Lula enquanto ridicularizava e condenava as vozes dissonantes que tentavam esboçar qualquer oposição. Com a queda da ex-presidente Dilma Rousseff e a ascensão de Temer ao poder, os amantes da liberdade de expressão finalmente puderam comemorar. Sem o PT no comando, discordar e criticar o governante voltou a ser prática comum, com todo o apoio dos movimentos que antes condenavam tal “rebeldia”.

Imagine nos tempos de Lula um curso em uma universidade federal com o título “O Golpe do Mensalão”. Imagine se nesses últimos anos tivéssemos cursos sobre “O Golpe da Pedalada” ou “O Golpe da Petrobrás”, eventos históricos de grande relevância que em qualquer país de democracia sólida resultariam em renúncias ou processos de impeachment imediatos. Difícil conceber tal cenário, não é?

Bastou chegarmos a mais um ano de eleições para que certos “cursos” e articulações voltassem a surgir, revelando-nos uma curiosa harmonia entre determinados partidos políticos e nossas universidades. Não vemos harmonia entre comunidade acadêmica e sociedade como muitos ilustres docentes insistem defender, mas sim uma ligação direta entre academia e partidos políticos específicos, ou, para ser mais claro: entre academia e a ideologia socialista que serve de base para a existência de vários partidos.

As universidades estatais brasileiras há muito deixaram de ser campos de estudos e desenvolvimento científico relevantes ou pelo menos salutares para uma ordem social estável. Em contraste, tornaram-se centros de formação política de extrema importância estratégica para determinados partidos que trabalham incessantemente visando a remodelagem da sociedade por métodos no mínimo questionáveis. Tais instituições recebem milhões de reais dos pagadores de impostos todos os anos e continuam apresentando resultados insignificantes em produção científica relevante e outros indicadores.

A criação de “cursos” sobre o “Golpe de 2016” – questionando, entre outras pautas, a atuação da Polícia Federal e a Operação Lava-jato – cria uma narrativa que se adequa à recuperação política dos partidos radicais em declínio e demonstra, mais uma vez, em quê nossos “acadêmicos” estão empenhados: contra os anseios populares de ordem e justiça e a favor da utilização de abundantes recursos financeiros retirados de terceiros para militar em causa própria e manter seus poderes, uma verdadeira casta aristocrática que busca a autopreservação por meio de causas aparentemente nobres como a “luta por democracia”.

Esta total divergência com os anseios populares nos mostra o quanto as universidades se transformaram em verdadeiras bolhas mantidas por uma espécie de elite das cátedras, onde ninguém entra sem antes jurar fidelidade aos métodos e à cosmovisão dirigentes, fazendo-nos até lembrar de determinadas estruturas religiosas e hierárquicas tanto criticadas justamente por aqueles que utilizam meios semelhantes.

Enquanto as universidades continuarem funcionando como colônias de intelectuais que se julgam os redentores da humanidade, o Brasil continuará ocupando as posições mais irrelevantes dos indicadores internacionais de educação, mesmo tendo gastos exorbitantes (proporcionalmente maiores do que muitos países desenvolvidos ou em franca ascensão). Na prática, tais gastos se convertem em privilégios para aqueles que os recebem ou em investimentos mal aplicados que quase nunca resultam em real melhoria para as futuras gerações de brasileiros que necessitam de uma formação sólida que proporcione algo de positivo em suas vidas ao deixarem a academia e buscarem o mercado de trabalho.

12 COMMENTS

  1. Orçamento das universidade pública é migalhas? Amigo, você não tem noção do que fala. Entra no portal de transparência da USP, Unicamp, veja o salário dos professores lá. 95% da produção científica é inútil, é pura embromação, as testes de mestrado e doutorado são uma piada. Empresas privadas não investe nada em inovação, pesquisa e tecnologia? Amigo você está fora da realidade.

  2. Estão se transformando em puro lixo? Amigo este processo vem célere a décadas. Eu mesmo me formei em engenharia na USP quando Lula ainda era presidente. Saí de lá um papagaio defensor do Lula. Depois fui conhecer Mises, Hayek, Rothbard, etc. Imagino que em cursos de humanas as coisas são piores ainda. Isso falando de USP, claro. Agora imagine outras faculdades, só sai idiota.

  3. Uma ponta de verdade, mas muita opinião pessoal. Sou a favor de se acabar com os privilégios dos políticos e com a estabilidade no serviço público, que como a administração precisa se avaliado e cobrado quanto a eficiência, em benefício de todos. Mas, universidade s como ciência não podem ser alheios a politica. Mas dizer que a universidade gasta fortunas e não produz nada e balela. Por acaso se faz pesquisa boas em empresas privadas no Brasil? As universidades e a pesquisa pública sempre trabalha com migalhas, assim como o ensino superior publico. No Brasil em relação a países como USA, China etc…e os cortes no orçamento Mara ciência e tecnologia, educação e saúde? O resto e balela! Pátria educadora onde?

    • Mas, universidade s como ciência não podem ser alheios a politica.

      O problema é que a política nas universidades públicas tem sido alheia à ciência. É puro proselitismo ideológico e partidário! Não é sequer ciência política que está na base de ensino destas universidades. Aliás, isso nem é exclusividade das universidades públicas, pois ocorre no ensino básico também: sob a alegação vazia de “estimular o senso crítico do aluno”, professores tem protagonizado típicas doutrinações nas escolas – a esmagadora maioria à esquerda. E as pessoas têm sido muito passivas com isto, até porque são ensinadas a não questionar a autoridade do professor (que senso crítico é esse?).

      Só para ilustrar, uso o tal “golpe”. Qual a base científica, jurídica e política, para dizer que houve um “golpe”? Nenhuma!!! Nenhum artigo que fala sobre “golpe”, referindo-se ao impeachment de Dilma, utiliza-se substancialmente da literatura jurídica – no máximo, nos conceitos genéricos. Nem mesmo nos documentos assinados por juristas pró-PT. Ninguém conseguiu demonstrar que não houve crime de responsabilidade, o que foi amplamente e profundamente demonstrado no acórdão do TCU, nos levantamentos fiscais dos bancos e, ora só, reconhecido indiretamente pela própria defesa de Dilma – que sequer negou que ela tenha praticados os atos, somente negando que seria crime de responsabilidade e reputando a conduta para os demais.

      Mas dizer que a universidade gasta fortunas e não produz nada e balela. Por acaso se faz pesquisa boas em empresas privadas no Brasil? As universidades e a pesquisa pública sempre trabalha com migalhas, assim como o ensino superior publico.

      Sim, se faz boas pesquisas também no setor privado (incluindo universidades privadas), e o ensino público superior não trabalha tanto com migalhas assim. Mas a questão não é essa: é a gestão das universidades públicas, que preferem gastar recursos com cursos sobre o “golpe” ao invés de investir na pesquisa científica.

      O Brasil, caro Eduardo, levou a alcunha em 2015 de produtor de lixo acadêmico pela revista Nature. E não foi sem razão: nossa produção acadêmica publicada em revistas indexadas é ínfima. Sabe por que isto? Não é por cortes de orçamento, até porque as universidades públicas consomem proporcionalmente mais recursos do que a educação básica no Brasil. Mas sim porque estão ensinando curso de “golpe”; estão ocupadas bradando “fora Temer”; estão ministrando faculdades com “pegada marxista” e coisas cuja produtividade é zero. Estamos nas mãos de professores, acadêmicos e reitores que não deveriam sequer estar lá – consumindo recursos públicos. Meros prosélitos! São pessoas que preferem a filodoxia ao invés do conhecimento. Nunca seremos pátria educadora assim!

  4. As universidades públicas brasileiras estão se transformando numa latrina. O campus da UFSJ em Divinópolis se chama Dona Lindu (a mãe do Lula). Na entrada do prédio da reitoria há uma placa enaltecendo Dona Lindu e seu filho (a despeito de tudo o que já se sabe sobre o molusco). Não tem luz no fim do túnel pra esse país.

  5. O Brasil (e a América Latina em geral) sempre tiveram esse problema de uma forma ou de outra – elites lacradoras que acham que problemas podem ser resolvidos na canetada, seja em forma de lei ou “crítica” (geralmente uma combinação deles). Possivelmente um reflexo da tradição ibérica de bacharelado e funcionalismo público como caminho para o sucesso e distinção.

    Triste é ver lugares que já foram mais sóbrios indo pelo mesmo caminho da desgraça…

  6. Eu vejo a esquerda dominando principalmente a área de Humanas das faculdades como uma parte do aparelhamento esquerdista… Formam-se dezenas de milhares de “professores” que vão duplicar a utopia e as fantasias vermelhas… Eu fiz odontologia, tenho amigos médicos e engenheiros, conversamos sobre usto outro dia e chegamos a conclusão que devido o grande tempo desprendido por estas carreiras no estudo específico da área, não temos ou não tínhamos tempo de ler O Capital e fazer política barata… Nossas carreiras exigem “chão de fábrica” e muito pouco ilusionismo… Quando um paciente chega com dor insuportável no meu consultório, não vou ficar debatendo com ele se o governo deveria dar tratamento gratuito ou se as políticas de prevenção estão mal cuidadas… Anestesio e tiro a dor do camarada… Se for “cumpanhero” tudo que ele vai querer nesse momento é alívio para sua dor e que se foda Karl Marx… É só minha opinião… No mais, um excelente texto/reflexão Sr. Leonardo…

  7. Isso dependo do curso, acontece principalmente nas humanas. Quem está na medicina ou engenharia não tem tempo prá isso. Está estudando.

  8. Pois é, amigo Leonardo! Enquanto, debatemos, temas políticos diversos, deveríamos centralizar nossas armas na raiz, na semente, desse “desarranjo” político! Exatamente, a “grande mídia” é a principal gestora, atuando em cima da grande massa votante! Somos um país com um grande indice de analfabetismo, caminhando para o abismo! Políticos corruptos, inescrupulosos, sempre gozarão do poder, enquanto essa massa, não se estruturar politica e culturalmente! Caso nosso “ex” presidente Lula, se candidate, fatalmente, será reeleito! Como diz o velho ditado: “cada povo tem o governo que merece” e a grande massa votante desconhece isso. Afinal, difícil, convencer, um povo sedento pelo “panis et circenses”. Pobre Brasil varonil !!!

  9. Esses DOCENTES FILHOS DA P… até levam os CANDIDATOS DA ESQUERDA p/ darem palestras nas vésperas das eleições nas salas dessas universidades !…quem paga a conta de LUZ, LIMPEZA e outras somos nós os contribuintes e eleitores !

  10. As Universidades brasileiras não formam mais bons profissionais e intelectuais dignos desse nome,mas meros idiotas úteis.Veremos se com o passar do tempo as coisa mudam,embora eu duvide muito.O tal politicamente correto aliado a uma ideologia porca e atrasada que é a esquerda praticamente destruiu toda a verdadeira Universidade que tínhamos.Mas veremos se as próximas gerações,se conseguirmos pelo menos tirar um pouco essa esquerdalha de nossas vidas,possamos recuperar alguma coisa.Mas nunca se esqueçam que levaremos no mínimo uns 50 anos para mudarmo tudo porque nunca se esqueçam que os filhos desses energúmenos que estão “estudando” agora é que serão os futuros alunos dessas mesmas Universidades! É,vai levar tempo e enquanto isso vamos permanecendo nesse maldito atrasado do século XIX !

  11. Façamos um teste: inscrevam um projeto de doutorado em qualquer área de Humanas na Unicamp, e coloquem um (e apenas UM) livro de Olavo de Carvalho na bibliografia. DUVIDO QUE SERÁ ACEITO.

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