A meritocracia não existe: o que existe é o mérito de atender melhor às outras pessoas

Todo mundo tem algum tio ou avô que já falou, pelo menos alguma vez, em meritocracia. Muitas vezes saudosistas e de idade já avançada incham o peito e dizem que “com trabalho duro, boas recompensas veem” e afirmam orgulhosamente sobre o quanto labutaram para chegar onde quer que estivessem.

Essa fala não é de todo mentirosa. Evidentemente, quem não possui valor nenhum – ou seja, não é capaz de ser útil de maneira alguma aos outros – o que se entende por ser um incompetente ou um vagabundo, dificilmente decolará na vida ou conseguirá qualquer ascensão. Bilionários são a classe social que mais trabalha no mundo (a maioria trabalha 60 horas por semana) e dificilmente conseguiriam chegar onde chegaram ou sequer manter suas atuais condições se fossem vagais.

Infelizmente – ou felizmente, seguindo as regras naturais do mercado – não é assim que a coisa funciona. Semelhantemente a todo tio meritocrático que temos, todos temos aquele primo que luta, luta e não sai do lugar. Chega a ser deprimente: a pessoa é cheia de entusiasmo, entra em todo tipo de empreitada promissora, e acaba fracassando retumbantemente, sempre.

Ao que parece, a meritocracia nem sempre funciona e nem sempre deixa de funcionar. Racionalmente, cria-se uma regra que envolve sorte, habilidade e uma rede de contatos apropriados para cada situação, o que explicaria o sucesso ou insucesso de cada um. Empiricamente, a resposta é bem mais simples: a meritocracia não existe.

A explicação para a ilusão meritocrática está na própria mecânica das atribuições de valor que cada sujeito e que a coletividade faz, mas resolvo aqui pegar o bom e velho exemplo de Megazord. O Megazord é um robô gigante de combate, imortalizado pelo seriado Power Rangers, que só é formado quando em situações de grande perigo. Paralelamente a isso, o Megazord no nosso mundo é inútil: ele é desengonçado, lento e fácil de se acertar.

“A riqueza é a capacidade do homem de pensar”(ayn rand)

Agora, imaginemos que uma pessoa, sozinha, gaste cinquenta anos de sua vida construindo um gigantesco Megazord. De segunda a segunda, faça chuva, ou faça sol, lá está o cidadão, martelando e parafusando as pesadas peças de metal que compõem o ciborgue. Ao fim de sua vida, ele terá duas coisas: todo o esforço que realizou para construir a máquina, e a máquina em si, sem valor nenhum. Ou seja, o indivíduo, sobremaneira, esforçou-se; no entanto, uma vez que o produto de tal esforço não tenha valor objetivamente monetário, todo seu esforço foi em vão: seu esforço de nada valeu, e ele passará o resto de sua velhice às moscas.

Esse é um exemplo bobo, mas elucidativo, de como a teoria da subjetividade do valor também se aplica a nossa noção de esforço e mérito, bem como anula a mais-valia marxista: não importa quantas horas se trabalhe, quanto se sue, quanto sangue se derrame: um trabalho sem valor considerado resultará algo inútil e tão sem valor quanto; ao passo em que trabalhos que exigem menos horas, como minerar um diamante e vendê-lo, geram muito mais riqueza. É por isso que alguns profissionais ganham mais do que outros por hora trabalhada: seguindo as demandas de mercado, algumas funções são mais escassas; outras, menos. A hora do neurocirurgião é mais cara do que a hora do catador de lixo; mas se algum dia tivermos mais neurocirurgiões do que catadores de lixo, este ganhará mais do que aquele.

Voltando ao homem que construiu o Megazord, uma coisa é certa: embora todo seu esforço tenha logrado inútil, ele ainda pode fazer uma exibição da sua obra aos fãs de Power Rangers e ganhar dinheiro com isso. O único que não ganha dinheiro nenhum é aquele que fica de pernas para o ar sem fazer nada.

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7 COMENTÁRIOS

  1. “Bilionários são a classe social que mais trabalha no mundo (…)” – Você realmente acredita nisso? Incluindo que, nessa frase, há a implicação de que trabalhos diferentes, de categorias diferentes, podem ser comparados e ordenados (um trabalhou mais do que outro, portanto, após fazer a ordenação, há o topo: o que mais trabalha). Quem trabalhou mais: Um bilionário banqueiro ou um bilionário do setor de TI? Quem trabalhou mais: o bilionário do setor de TI especializado em A ou o bilionário do setor de TI especializado em B?

    Eu conheço o argumento “o mercado premia quem gera valor (que é algo subjetivo. Como foi apontado no seu próprio texto, se o Megazord criado tem valor ou não, depende dos olhos de quem vê)”. E os bilionários que ganham fabricando armas e equipamentos militares para governos fazerem suas guerras? E os bilionários que se sustentam do sistema bancário fraudulento criado pelo governo? Estão gerando valor? Para quem?

    Você menciona as “demandas do mercado”, como se isso fosse algo puro, numa rede formada por pessoas agindo pacificamente e voluntariamente, mas existe demanda maior que a demanda do governo? E a interferência que essa demanda causa na rede? O crescimento dos cursinhos, a geração “concurso público”. É uma árvore: A raíz é o governo, que liga com os ministérios, as empresas estatais, os corporativistas, que ligam com seus respectivos funcionários, que então ligam com os servos (usando o termo de uma charge publicada pelo ILISP no Facebook, onde os funcionários públicos são a nobreza e os demais são os servos).

    Então não há nenhum problema a ser encontrado aqui? Os bilionários que ganharam seu bilhão construindo estádios para o governo, armamentos para o governo, cooperando com o governo para manter a ilusão do dinheiro falso, são ótimos exemplos de pessoas que trabalham mais que todo o mundo?

    • Toda a sua argumentação é baseada em criticar o texto dizendo q tem bilionários que são ricos por causa de crimes. Bom, n sei se vc sabe, mas ser criminoso é algo ilegal, eles devem ir pra cadeia, é canalhice usar isso pra criticar a lógica apresentada.
      Ah, vc disse tb q tem pessoas q ficam ricas vendendo coisas pro estado q n agregam valor as pessoas. Bom, o estado é isso ai mesmo, destroi mercados e fode a vida da população desde sua criação, por isso os liberais são contra ele. Mas usar isso pra invalidar a meritocracia tb é canalhice. Em cuba existe mto menos meritocracia do q em Hong Kong, por exemplo. É mto evidente q enquanto maior o estado ou criminalidade, menor a meritocracia. Meritocracia não é uma lógica booleana, pode ocorrer em maior ou menor grau, de acordo com o desenvolvimento da sociedade.

    • Mais uma pessoa que não sabe a diferença entre livre mercado (Capitalismo) e capitalismo de estado. Querer usar países socialistas como exemplo de livre mercado é um erro comum. 😉 E sim, os bilionários são os que mais trabalham, saiu uma matéria falando sobre isso há alguns anos. PS: Não sei como está seu nível de interpretação do português, mas “maioria” não significa TODOS, logo deixa uma brecha para exceções.

      https://economia.terra.com.br/maioria-de-bilionarios-trabalha-60-horas-ou-mais-por-semana,1ba0982e49ac7410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html
      http://happyhour.blogosfera.uol.com.br/2014/08/11/maioria-dos-bilionarios-trabalha-60-horas-por-semana-ou-mais-diz-forbes/
      http://www.infomoney.com.br/carreira/gestao-e-lideranca/noticia/3523755/acha-que-facil-maioria-dos-bilionarios-trabalha-mais-horas-por
      http://istoe.com.br/377300_MAIORIA+DE+BILIONARIOS+TRABALHA+60+HORAS+OU+MAIS+POR+SEMANA+/

        • Não saquei seu ponto, o que e que tem de errado em alguém ser herdeiro? Agora é errado deixar patrimônios para nossas futuras gerações? Resumindo; Vou trabalhar mais que a metade da minha vida para poder dar condições melhores de vida para meus filhos, e isso agora é considerado errado? É esse seu ponto?

          • O detalhe relevante do gráfico é o seguinte: bilionários ligados ao setor financeiro estão em aproximadamente 20% dos total no Brasil e nos EUA. É muito preocupante quando o setor financeiro se torna tão lucrativo assim.

            Dinheiro pode ter, entre outros propósitos, o propósito de **munição**.

            Estamos numa situação onde é possível um planejamento central determinado por bilionários, simplesmente porque eles tem dinheiro o bastante para comprar todo tipo de briga tranquilamente. É quase como se estivessem usando um “cheat code” para ter munição infinita (até acabar, vai levar um tempo considerável, em torno de anos ou décadas).

            O site do movimento VemPraRua foi registrado usando o CNPJ da Fundação Estudar, do Jorge Paulo Lemann. O ILISP publicou uma matéria mostrando que a Mídia Ninja é financiada pelo George Soros.

            O dinheiro era útil quando ele refletia a vontade descentralizada das pessoas, o voto descentralizado. O desnível era um reflexo da preferência das pessoas. Hoje, ele é o reflexo da vontade do Estado (o dono do infinito de dinheiro) e daqueles que estão próximos da impressora de dinheiro (os bilionários).

            O dinheiro é a escravidão moderna.

          • O único problema que vc falou no qual eu concordo é essa parte; “Hoje, ele é o reflexo da vontade do Estado (o dono do infinito de dinheiro) e daqueles que estão próximos da impressora de dinheiro (os bilionários).” O maior erro de um país e deixar o estado tomar vida própria, pois nesse momento acontece o que aconteceu nas grandes crises dos EUA. O governo cria vantagens para um grupo seleto no qual cria crises e bolhas que prejudicam todos no futuro, e o estado vai lá e ajuda esses amigos do rei, pois “eles são grandes demais para cair”. Mas isso não é um problema de heranças, mas sim de um governo grande e centralizado.

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