Nem direita, nem esquerda: o que a mídia quer é audiência

Em setembro de 2010, o “Jornal do Brasil”, anunciou que deixaria de circular em seu formato imprenso e manteria apenas a versão online. O periódico foi fundado em 1891 e chegou a contar com a colaboração de figuras ilustres como Rui Barbosa e o Barão do Rio Branco; logo, não era de modo algum um jornal incipiente. Mesmo assim, a falta de dinheiro para financiar a impressão de novos exemplares fez com que o proprietário, Nelson Tanure, optasse por transformar o JB num portal de notícias – nos mesmos moldes da “Tribuna da Imprensa”, de Carlos Lacerda. Problema semelhante acometeu os diários franceses “Libération” e “Le Monde”, que seguem devagar quase parando – a despeito dos subsídios que o governo de François Hollande fornece. O caderno “Libération”, fundado por Jean Paul Sartre em 1973, sobrevive graças ao jornalismo digital. Já o “Le Monde”, dizem as más línguas, cambaleia amparado pelo dinheiro do controverso Xavier Niel. Até mesmo o gigante americano “The New York Times”, considerado por muitos como o templo mundial do jornalismo “progressista”, vem perdendo assinantes e receitas publicitárias em cascata.

Para enumerar as causas dessa crise precisaríamos de um ensaio ou talvez até de um livro, mas na falta de um espaço maior para discorrer sobre o assunto eu vou arriscar um palpite. Os jornais se firmaram, ainda no século XIX, como extensões de articulações partidárias que se enfrentavam na esfera pública – o que fez com que os leitores passassem a classificar os órgãos de imprensa de acordo com as correntes ideológicas dos editores. Vejam o caso do Estadão: o jornal nasceu em 1875, com o nome de A Província de São Paulo, e seus redatores tinham o objetivo declarado de promover a causa republicana. Isso fez com que o adjetivo “republicano”, carregado de conotação política, passasse a ser usado com cada vez mais frequência para descrever a publicação – e convenhamos: definia-o muitíssimo bem. O JB, por outro lado, nasceu com intenção de defender a monarquia e chegou inclusive a se referir ao regime, em um editorial assinado por ninguém menos que Joaquim Nabuco, como “a melhor República possível”.

De fato, quase todos os jornais do século XIX e XX foram rotulados com alguma designação ideológica. De republicanos à monarquistas, de nacionalistas à internacionalistas, de conservadores à liberais, praticamente todos os veículos de imprensa receberam – e aceitaram! – uma nomenclatura política. E isso foi ótimo, pois colocou um basta na falsa neutralidade que imperava no meio jornalístico e propiciou o surgimento de um novo padrão: mais literário e opinativo. Nesse novo modelo de jornalismo, baseado no entendimento de que a verdade surge através de um processo dialético-adversarial, a verdade é alcançada através da aplicação da lógica e da representação da realidade – como você a percebe. Qualquer viés ideológico que possa produzir distorções em seu relato será examinado sem dó pelos leitores e imediatamente confrontado com informações que foram ignoradas de forma inconsciente ou deliberada. O rótulo, que muitos puristas veem como uma arbitrariedade, é apenas o subproduto dessa mudança de paradigma.

E como todo subproduto, o rotulo é mais suscetível a passagem do tempo que o produto do qual ele se originou. Assim, boa parte deles perdeu o sentido na medida em que o binômio “esquerda/direita” foi se tornando insuficiente para descrever a realidade política moderna. Felizmente, uma outra parte se manteve e foi aprimorada graças a habilidade dos jornais de expandir as classificações políticas para além da dicotomia já consagrada. Surgiram expressões como “nacional-desenvolvimentismo”, “distributismo”, “welfare state” e “laissez faire”. Cada uma delas estava íntima e impreterivelmente ligada a um conceito, sem o qual seria praticamente impossível explicar fenômenos políticos modernos como a ditadura militar brasileira: que embora seja vista como um movimento de direita, estatizou a economia em índices quase soviéticos.

Em meio a esse emaranhado de conceitos, não há dúvidas de que a imprensa, como objeto teórico, ganhou autonomia; mas seu âmago ainda permanece encerrado nos escaninhos da política. Um jornal não é (mais) a mesma coisa que um partido, mas a sua qualidade ainda está direta e indissociavelmente ligada a sua capacidade de interpretar os fatos e transmitir a notícia mantendo um núcleo indentitário mais ou menos intacto. Podemos afirmar que o modelo convencional de “objetividade” e “imparcialidade” do jornalismo profissional (também conhecido como “ponto e contraponto”), está com os dias contado. Em seu lugar floresceu, ou melhor, está florescendo, um outro modelo – com forte viés liberal, baseado na pluralidade e, por que não, na ideologia dos seus redatores. Graças aos inúmeros blogs e sites independentes que estão surgindo, a informação, hoje mais do que nunca, é transmitida de forma clara e honesta. Não há isenção, mas para ser bem honesto: quando foi que houve?

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