Nós temos um sócio e ele é um tirano

Talvez um dia eu me arrependa de ter sido tão sincero, mas faço aqui uma revelação: meu sócio é um tirano.

Ele já estava aqui quando eu cheguei, e talvez por isso não se envergonhe em receber mais dos resultados do meu trabalho do que eu mesmo e do que qualquer dos meus outros sócios, ainda que não faça praticamente nada pelo negócio.

É corriqueiro que da noite para o dia ele apareça com novas regras, que são tiranicamente impostas a todos nós. A arrogância é nauseante, e por mais evidente que seja a mera formalidade ou a falta de sentido de algumas das normas implantadas, pagamos muito caro por qualquer eventual desatenção ou deslize.

Adora aparecer nos jornais fazendo “filantropia”, que na verdade não passa de jogo de cena, pois quase sempre está apenas devolvendo às pessoas uma parte do que delas roubou sem que percebessem. Se doa algo que não foi anteriormente arrancado do próprio “beneficiário”, certamente é porque tirou à força de outras pessoas.

Cria estruturas sob o pretexto de turbinar os negócios, mas cujo real objeto é garantir vantagens aos seus amigos e agregados. Chegou ao cúmulo de criar uma espécie de fundo, para o qual todos somos obrigados a contribuir, dos executivos à faxineira, e que é usado para emprestar dinheiro a juros negativos para aqueles que “mereçam”. Mas, adivinha: é ele que escolhe quem “merece”.

Para atrair a simpatia dos incautos, ele distribui migalhas aos sócios mais jovens ou àqueles que, apesar de experientes, simplesmente não percebem que o grosso das riquezas que produzimos continua correndo para os bolsos da cúpula que o rodeia.

Quando os negócios vão bem, ele novamente se joga nas capas dos jornais como se tivesse sido o grande líder de todo o bom trabalho. Se a sociedade, porém, cambaleia diante da burocracia inútil e dos perdulários gastos por ele promovidos, ele culpa os que de fato trabalham e produzem.

Às vezes me revolto e ameaço deixar a sociedade, mas, pasme: ele me coage a continuar sendo seu sócio, aproveitando-se do fato de que detém o monopólio do uso da força.

Sinto lhe informar, caro leitor, mas tal sócio é também seu, e o nome dele é estado.

Publicado originalmente no Jornal de Santa Catarina, 17/06/2017

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