O petróleo não é “nosso”. O petróleo é dos políticos e de seus amigos corporativistas

Em uma recente discussão com um amigo nacionalista, surgiram os temas que deram origem ao tema deste artigo. Não sei ao certo como estavam as ideias da população durante as “Diretas Já” ou durante a investigação e processo do Impeachment de Collor, mas nos dias de hoje, graças a Internet como ferramenta de comunicação, vejo muitas pessoas acompanhando e envolvidas com acontecimentos políticos. Pudera, o amplo descaso e escárnio das figuras políticas com relação a medidas intervencionistas na economia e limitação de outras liberdades, prejudicaram a todos.

Por outro lado, também está muito mais fácil se alinhar a um discurso ou a uma ideia que lhe pareça confortável e que talvez venham através de palavras de uma figura que lhe agrada. Lembro do que ocorreu no final da minha adolescência, quando tive a infeliz obrigação de ser escravo do governo e trabalhar nas eleições como mesário. Conheci uma eleitora que disse “voto no Maluf porque acho ele um ‘pão'” e aposto que esta senhora usa Facebook e memes nos dias de hoje.

Infelizmente, a dialética mais comum para a nossa cultura, adotada para a política ao menos por enquanto, é a dialética do futebol. Sempre há uma competição em andamento, porém ao contrário do futebol, muitas pessoas não estão preocupadas se alguém vai ganhar ou perder, mas em escolher um lado, uma legenda, onde elas esperam perder menos liberdade individual (mesmo que a escolha seja inconsciente) ou supostos privilégios do “papai estado”. Mas, se você for assessor de político, prestador de serviço pagador de propina, sindicalista, artista financiado pela ANCINE ou homologado pela lei Rouanet, membro de movimento popular ou qualquer outro segmento financiado pelo estado e sua extorsão, seu interesse na manutenção da estrutura estatal, cada vez mais inchada, está mais do que evidente.

Pois bem, este amigo enviou um vídeo do senador Roberto Requião, de 24 de fevereiro de 2016, onde há uma crítica a um projeto relacionado a exploração de petróleo em águas profundas, o chamado pré-sal. O projeto do senador José Serra, que tramita na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ) (um nome pomposo para justificar o dispêndio do nosso dinheiro, não?), tem por objetivo tirar da Petrobras a exigência de participação mínima de 30% nos grupos de exploração do petróleo extraído desta origem. Embora a Lei do Petróleo de 1997 tenha revogado o explícito monopólio da Petrobras nas atividades de exploração, produção, refino e transporte que existia desde 1953, a estatal detém na prática o domínio do refino e da importação de petróleo no país. A empresa desenvolveu uma rede de terminais portuários especializados, de dutos e diversas refinarias. Ou seja, apesar de o Brasil abrigar um gigantesco mercado consumidor, é muito complicado para qualquer empresa ter disposição para entrar aqui. A ausência de concorrência somada a gestão ineficiente, que é característica de qualquer empresa governamental, explica porque pagamos tão caro por derivados do petróleo.

Vivemos uma época em que este produto essencial (ou commodity), o barril de petróleo, possui um valor inferior a US$50 há 16 meses. Em 2 anos vem acumulando uma desvalorização de 83,87%. Especialistas neste mercado afirmam que um dos fatores para a queda assombrosa se deve a descoberta do chamado petróleo de xisto, cujo custo de extração está por volta de US$60, enquanto que a extração de petróleo em águas profundas possui o elevado custo de US$110.

Apesar de ainda vigorar no senso do brasileiro a frase “O petróleo é nosso!”, criada na época da primeira concessão para exploração do petróleo no Brasil e criação da Petrobras em 1953, já em 2014 éramos o 13o. maior produtor de petróleo do mundo mas também ocupávamos a 16a. posição da gasolina mais cara.

Ao fazer uma breve analise dos balanços da Petrobras (de 2010 a 2014) e dos indicadores financeiros do último ano (2015), foi possível confirmar uma acentuada queda na liquidez geral da empresa, enquanto seu endividamento só aumenta, em uma proporção maior que 3 vezes, de 2010 a 2014:

Tabela de Liquidez Geral

NOTA
Os valores acima foram obtidos no balanço patrimonial. A Liquidez Geral leva em consideração a situação a longo prazo da empresa, incluindo no cálculo os direitos e obrigações a longo prazo.

Liquidez Geral = (Ativo Circulante + Realizável a Longo Prazo) / (Passivo Circulante + Passivo Não Circulante)

A partir do resultado obtido podemos fazer a seguinte análise:

Maior que 1: é um resultado que demonstra folga no disponível para uma possível liquidação das obrigações;
Se igual a 1: os valores dos direitos e obrigações são equivalentes;
Se menor que 1: não haveria disponibilidades suficientes para quitar obrigações, caso fosse necessário.

Gostaria de saber quem, além de políticos, empresários corporativistas e outros agentes estatais como os partidos que tiveram campanhas financiadas pelo caixa 2 desta empresa, teria interesse em ser sócio da Petrobras em um modelo de negócio que comprovadamente não dará lucro. Eu com certeza não seria.

Agora, procure contar quantas vezes Roberto Requião apela para a “soberania” ou para o “patrimônio da nação” na sua declamação quando se refere a Petrobras ou ao petróleo. Ele iniciou sua carreira pública em 1982 como deputado estadual no Paraná, foi governador do estado e desde 2010 é senador, e assim como José Serra, pôde acumular anos de experiência na retórica de fundamento emocional, poucas vezes argumentativa e com quase ausência de lógica, típica dos políticos.

“Uma vez que a maioria das pessoas tende a amar a sua terra natal, a identificação dessa terra e do seu povo com o estado foi um meio de usar o patriotismo natural para benefício do próprio estado.  Se a ‘Ruritânia’ estivesse sendo atacada pela ‘Uldávia’, a primeira função do estado e dos seus intelectuais seria convencer as pessoas da Ruritânia que o ataque era dirigido a eles e não apenas à casta dominante.  Desta forma, uma guerra entre governantes seria transformada numa guerra entre povos, em que a massa dos indivíduos agiria em defesa dos seus governantes sob a falsa crença de que os governantes estariam agindo em defesa de seus indivíduos.  Este apelo ao ‘nacionalismo’ tem sido útil, no Ocidente, apenas em séculos mais recentes; não há muito tempo, a massa de súditos olhava para as guerras como batalhas irrelevantes entre diversos grupos de nobres.” – trecho de A Anatomia do Estado de Murray Rothbard.

O trabalho de criticar ou de afirmar propostas dos senadores (que tem mandado de 8 anos e uma aposentadoria a cada mandado), custam R$ 2.035.528,73 ao ano por senador (dados de 2014).

E meu amigo nacionalista, no seu sentimento de posse e identidade de país, se preocupa que “os imperialistas” estão querendo o “nosso” petróleo. Acredita que existam planos de domínio que dividem o mundo em eixos EUA/Inglaterra e Rússia/China, enquanto que os interventores estão bem mais próximos, nas esferas municipais, estaduais e federais se mantendo ativos graças aos instintos de medo e insegurança das pessoas, contrapondo os instintos de criação e realização que assentam a liberdade e o desenvolvimento humano.

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