Por que o sistema de saúde americano é um exemplo de corporativismo e não de livre mercado

A esquerda está desesperada em face do liberalismo crescente, no Brasil e no mundo todo.  De mentiras que vão desde “liberais não gostam dos pobres” até “o ambiente de livre-mercado gera monopólios”, é difícil discernirmos o limite entre a pureza dos que não entendem economia e o mau-caratismo daqueles que querem – e precisam – manter sua mamata estatal. De má ou boa fé, o importante é que os estatistas, cada dia mais, percebem que o que lhes dá mais problema são as ideias liberais e libertárias, e não as conservadoras como pensavam até então. O conservadorismo é cultural; o liberalismo, uma doutrina que pode ser aplicada na política, na cultura e na economia, gerando as mudanças nas quais tanto o brasileiro anseia (redução de impostos, de burocracia e, consequentemente, geração de empregos).

Não obstante, parece que nossa esquerda não é boa de lógica, mas é muito boa em distorcer a história. Não faltam chavões clássicos ensinados à náusea nas escolas públicas pelos professores de humanas. Como estudante de medicina, algo chamou-me a atenção: o documentário de Michael Moore, Sicko (SOS Saúde no Brasil), parece ter voltado à vida. Sem entrar no mérito se um sistema universal de saúde presta ou não, nossa esquerda conseguiu tecer uma narrativa inteiramente nova em cima dos dados levantados, mesmo que de maneira tendenciosa. Agora, a esquerda diz que o sistema 100% privado de saúde estadunidense seja um oligopólio gerado pelo capitalismo – ou, pior, pelo “livre mercado” norte-americano.

“Esses empresários só pensam em lucro! Como pode alguém ainda acreditar no capitalismo, quando se está provado que a medicina combinada com dinheiro, seguindo a ética do lucro, só gera exclusão e sofrimento dos que não podem pagar?” –  esse pensamento é mais comum do que se imagina. Não estando na mente apenas dos esquerdistas, mas de grande parcela da população, a qual é constantemente bombardeada por pautas altamente estatistas que servem a grupos midiáticos, industriais e, pasmem, até mesmo a serviços privados de saúde, o aforismo de que a medicina “deve ser exercida por empatia e amor ao próximo” foi posto em seu máximo superlativo nas terras tupiniquins e, em seguida, elevado à décima quinta potência.

Para começar quebrando esse mito, vamos voltar aos anos 1970, na Era Nixon nos EUA (o mesmo presidente que esteve envolvido no escândalo Watergate). Sob a alegação de que um sistema universal de saúde oneraria demais os cofres públicos, Nixon criou um plano para planificar e universalizar a saúde privada no país – O Ato de Manutenção da Saúde de 1973 – com o adendo de que Nixon, avesso a um plano nacional de saúde, recebeu pesado apoio de Edgar Kaiser, empresário que já tinha em mente a formação de um cartel em serviços de assistência médica. Formou-se, então, um acordo entre estado e iniciativa privada – o famoso corporativismo – que criou um oligopólio para planos de saúde nos Estados Unidos, cerrando o mercado, oferecendo serviços ruins e cobrando preços astronômicos – bem parecido com o sistema de telefonia móvel brasileiro, regulado pela Anatel. Dessa forma, os EUA, se, por um lado, não tiveram nenhum sistema de medicina socializada, por outro, permitiu e incentivou a formação de todo um sistema criminoso na saúde, com alguns poucos grupos financeiros controlando todo o mercado. Perceba, leitor, que isso está bem distante do livre mercado: isso é estatismo em sua face mais cruel.

Em um ambiente de livre concorrência, os que oferecerem um serviço ruim e caro quebram e os que oferecerem um serviço bom e barato logram sucesso. É isso que ocorre com o Uber, que está lentamente destruindo o cartel dos taxistas. No entanto, o Uber é um rebelde – ele consegue driblar a vigilância estatal e ainda existir, mesmo com sanções. Com planos de saúde, telefonia, serviços postais e tantos outros, isso não é tão fácil: uma empresa não pode simplesmente entrar no mercado sem a chancela do órgão regulador. E isso provoca o que já estamos cansados de ver e viver: péssimos serviços, altos preços e muitos impostos para sustentar a máquina estatal. Quiçá possamos permitir que a liberdade vença, pelo bem dos nossos bolsos e da nossa saúde.

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